sábado, 8 de outubro de 2011

Pensares a conta-gotas (39)

É preciso querer
vidas infinitas,
para se contemplar
todas as estrelas,
que encham as vistas,
mais que só em tê-las
à luz de vê-las. 




Toda obra se consuma em arte
(Uma palavra, uma pincelada,
Um lance de bola ao vento),
E se queda sempre inacabada,
Para os constantes admiradores
A completarem, ao contemplá-la,
Com ávidos olhares sensórios
De sempre eternos criadores.





Desespero de mais sofrer:
Enquanto vida dispunha,
o náufrago alimentava
esperanças de mais viver.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Pensares a conta-gotas (38)

O homem, ainda, haverá de viajar
Na velocidade do pensamento.
Mais ainda, porém, de chegar
Aos limites de legítimo intento.

Este não estará à luz de seu relance,
Enquanto não alcançar o momento
De poder desvendar seus espaços,
Para mais além de poder de alcance.




Toda amizade é redonda,
Aos poucos arredondada.
E nasce do rito do atrito,
Entre as partes acordadas.

O mundo todo é redondo,
Sutilmente se arredondando.
Até o angulado quadrado
Quando se rola, ralando.

O desgaste do uso, em tudo,
No engate da mecânica,
Faz parte do reajuste no fuso,
Para o belo e a justeza,
Do todo bordado profuso.

domingo, 2 de outubro de 2011

Contos Contados de Minas (16)

No translado do Morro Alto

Pai e filho conversavam pouco. Por aquelas beiradas de serra, córregos e rios, quanto menos se conversava mais respeito se impunha. Observava-se o rito mínimo necessário, e, assim mesmo, mais se falava por gestos e olhares do que por palavras. Além do mais, o vocabulário pouco e a autoridade imperiosa.
Nesse entrementes, o fato, de pouca monta e mais deduções, se deu nas alturas do Morro Alto, quando a poeira dos cascos do gado embaçava as vistas e aguçava a imaginação que se transformaria em leves lembranças vindouras.
O nome do topo tem lá seu sentido: do alto pode-se divisar uns bons pedaços de mundo. De um lado, o vale do Espírito Santo, que vai serpenteando até a serra que contorna a Vila Guimarânea. De outro a Bocaina, ponto final do divisor das águas do mesmo rio com as do Santo Antônio das Minas Vermelhas. Um pouco mais longe, o começo dos chapadões. Mais ao longe as terras baixas por onde escorrem mais águas pequenas que vão se ajuntando aos dois cursos maiores para formar o rio Paranaíba, que no correr das léguas vai engrossando o corpo com os volumes daqueles córregos todos. À noite, dali se observa luzes das cidades de Patos, Patrocínio, Carmo do Paranaíba, Lagoa Formosa, ou os clarões minguados de lugarejos mais distantes, como os da Boassara, do Lagamar e do Pântano dos Coromandéis. O morro é lugar de maior trânsito, talvez por serem poucas as opções de estradas para se chegar à região dos Caixetas para quem provinha das bandas do Santo Antônio ou da Serra Feia, e vice-versa.
Menino ainda, naquela época, mas havia muito acompanhava meu pai por onde ele resolvia andar, pois que não costumava dar muita explicação de suas intenções e itinerários, Mas isso nem precisava, porque menino não tinha mesmo querer. Era só adivinhar e seguir os rumos do pai, pois que toda caminhada dava sempre de volta à casa.
Naquele dia eu tinha companhia, e quase de minha idade. Meu primo nos acompanhava no trecho. Estávamos a cavalo, conduzindo uma ternada de vacas, bezerros, e novilhotas. Miudezas catiradas daqui pr´ali nos arredores.
No translado do Morro Alto, um cavaleiro, como era corrente naqueles caminhos, fez-nos frente e logo parou para tirar um dedo de prosa com meu pai, os cavalos cheirando o suor dos quartos do outro. Conversa vai, conversa vem, fuminho bom dali, palha de pito daqui, faz um do meu, dê-me uma pitada do seu, o canivete roendo o rolo e o tempo passando vagaroso. Mas o gado não podia esperar aquela arenga, tinha que seguir caminho, e meu pai me fez gestos para ir tocando em frente. Eu já conhecia bem os costumes e sabia que, naquelas circunstâncias, a prosa iria encompridar. Tive, entretanto, a idéia de perguntar para que lado virar, se para a Fulminante, se para a Serra Feia. “Pra casa”, já gritou ele, para atalhar mais a prosa, pela circunstância, resumida.
Estes dois nomes estranhos eram os das duas partes da fazenda, separadas uma da outra pelo Santo Antônio. A morada, mesmo, era na Fulminante, e foi para lá que, disse ao meu primo, levaríamos o gado. Sozinhos, sem a presença inibidora de meu pai, pusemo-nos também em adolescentes prosórios. A distância do meu pai crescia com o pisar dos cavalos e das reses. Àquela altura ele já devia estar tirando baforadas do fumo macio do companheiro que, por sua vez, já baforava a fumaça cheirosa do fumo de lata, com banana de baunilha, que meu pai guardava por debaixo da cama, ou sobre o guarda-roupa, como de costume. E nós ali, na cadência dos passos, seguindo o gadinho ralo, distraídos nas conversas de menino.       Na encruzilhada, eu já sabia que direção tomar. Era virar o gado para a esquerda e continuar no balanço gostoso dos cavalos a jogar fora, ao vento, risos e palavras.
De repente, um tropel de cavalo a galope. Estranhei. Era meu pai que vinha chegando e, logo, esbravejando comigo. Não era para virar para aquele lado. Tínhamos que passar primeiro na Fazenda dos Coqueiros, para pegar mais umas rezinhas. Tive, então, de ficar esperto, no ajudá-lo a virar o gado e desfazer o caminho até andado.
Isto feito, ficou o desapontamento, a sem-gracesa do momento. O meu primo, com quem meu pai se permitia muitas conversas e até gracejos, também se emudeceu com o repentino do acontecido. Eu, que, costumeiramente, já quase não conversava com meu pai, calei-me de vez, envergonhado na revolta interior.
Passados alguns longos minutos, em que só se ouvia o barulho rastejado de cascos chutando poeira no chão, o meu pai resolveu quebrar o gelo daquela situação.  Perguntou ao sobrinho se fosse para ele escolher dentre aquelas criações, qual delas escolheria? Meu primo foi logo acedendo à pergunta e, depois de bem avaliar, escolheu o melhor dos animais. E, eu, que criação escolheria? Para não faltar-lhe com o respeito, sem deixar de responder ao que perguntava, mas ao mesmo tempo querendo marcar o meu descontentamento com tamanha dureza no trato, mostrava a primeira rês, a da rabeira, a mais cansada e magra, a derradeira, e apontava bissilabando: “esta, aqui”.
           E assim, de “escolha mais uma, e você com qual fica”, o caminho encurtou, o tempo passou e tudo foi chegando aonde sempre chegava: à casa, novamente. Do Morro Alto, das poeiras dos caminhos e enroscos para o pito de palha e o fuminho gostoso, que tanto encurtou a vida de meu pai, ficou a lembrança, que o tempo vai se encarregando de transladar para momentos de mais prazeres do viver mais perto de si mesmo.

sábado, 1 de outubro de 2011

Pensares a conta-gotas (38)

Meu passatempo, por hora,
É sem prazo marcado
Pela dinâmica das rodas,
Delimitada de fora,
Nas engrenagens mecânicas.

Como nos velhos tempos,
Escorre meu tempo com pressa,
Na ampulheta de areia,
Regulado de dentro,
Ao ritmo do sangue nas veias.


 ∞


A natureza não favorece os males,
Mas fornece os contravenenos,  
Para os contratempos terrenos.

Harmônica, ela sempre desvela
Assistência aos seres animados,
Que caminhem a seu lado.

À força da ciência e dos juízos,
Ela revela as naturais essências, 
Sem sequer menor prejuízo.

E das límpidas consciências,
Das mais sensatas criaturas,
Ela retira a justeza das curas.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Contos Contados de Minas (15)

A “com´é que chama”

O vocabulário, como sempre, limitado ou apenas sugerido. Mais do que palavras, os gestos explicam. Coisas da roça, do pouco falado, no sempre afobado momento do sem-saber como mandar, da pouca leitura ou do não se conseguir comunicar. O laconismo na conversa se traduz na idéia dos atos sugeridos, autoritários. Costume de consagrar o respeito a todo preço.
Com os de mais pouca idade, então, só a agudeza do olhar, o aceno mais brusco devia bastar. Nem carecia de mais demora na explicação. Fechar a cara e ir comandando de rompante resumia a curta fala: “Vai lá dentro e traz a... a... a ‘com´é que chama’!. Depressa !”.
O menino não tinha tempo, nem podia retrucar, perguntar o nome da tal “com´é que chama” de tanta necessidade, e, ao mesmo tempo,  tão carregada de imprecisão. Tinha que sair correndo, reconstituindo a cena desde o momento da premente carência do tal objeto, adivinhando, pelo caminho, a serventia que lhe seria destinada. E trazê-lo, por mais incógnito fosse, o mais depressa possível.
Assim, diante de tais freqüentes situações, era imperioso pensar, bater cabeça, relembrar a cena, do começo ao fim do serviço em execução, que justificasse a tal urgência. Caso trouxesse a ferramenta trocada, ou um objeto qualquer, incorria no risco de levar reprimenda, além de ter que rebuscar caminho para, num pé lá outro cá, identificar uma outra “com´é que chama”  que atendesse o objetivo desejado.
Não havia escolha, não havia erro, só lugar para acerto, por meio da adivinhação, da perspicácia e inteligência de meninos de roça, que não eram, como nunca foram, tão “rudos”, como ainda, comumente, se apregoa. Ou a eles creditam os inexperientes garotões das urbes.
Nestes muitos recantos das Minas, a “com´é que chama” ainda impera no elenco escasso do palavreado das gentes pouco dadas à comunicação dos lábios, e continuará sendo a ferramenta para indefinidas serventias. Apenas para alguns, cada vez mais raleados interlocutores, ela será passível de adequada significação nos gestos.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Pensares a conta-gotas (37)

A casca, dia após dia, mais alvejada,
O miolo, ainda, assaz vermelho,
O coração vibrante, a alma aliviada.

Os braços fiáveis, as pernas fortes,
O corpo-esteio, abrandado no espelho,
A fatal/idade, investida a qualquer meio.

O exemplo, a viva sucupira branca,
De aparência alva, o cerne rubro,
Do cerrado ralo, ou do mato denso.

De verdade, o lenho, a vontade, o senso,
A força, ainda que sem igual engenho,
São graças, mais do que real desempenho. 


Abdiquei-me das sensatas idéias,
Dos conselhos, dados de graça,
Que julguei eficazes, por herança,
Capazes de imutáveis mudanças.

Os tempos não mais concedem
Dividir pensares por conta da idade,
Carregados dos humanos preceitos,
E das cãs, como prova de verdades.

Doravante, o mundo investe nas máquinas,
Frias, de intolerâncias e mais teimosias,
Revisando, estonteantes, os conceitos
De antigas e comprovadas teorias.

Definitivos, os apertos nos teclados,
Com evidentes e nefastos resultados.
Provisórios, os acertos dos diálogos,
E as justas paridades nos decálogos.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Contos Contados de Minas (14)

Outra história de cachorro 

O arraial do Pântano, ou do Pantano, ou, mesmo, do Panta, de pronúncia mais cômoda, ficava nas cercanias do lugar onde moravam, questão de umas três léguas a cavalo, quando muito, ou de hora e meia de estrada puxada, aproveitando o ar da manhã que, ainda, não se deixara aquecer pelos primeiros raios do sol. O horário da missa não costumava passar das oito horas, e os padres, naquele tempo, não perdoavam desculpas de atrasos por causa das distâncias do povoado.
 De vez em quando ia um padre para celebrar a missa, atender as confissões, fazer alguns batizados e casamentos apressados. Extrema-unção e encomendações de defuntos eram casos mais esporádicos, mas também davam de acontecer. Bastava correr pelas redondezas a notícia de missa no Panta que para rumavam os tementes a Deus, para se desobrigarem e aliviarem as almas do que pensavam ser pecados e empecilhos a uma vida mais cristã. Dívidas são dívidas, e com as de Deus, sempre presente e atento aos mínimos gestos, mesmo os do escuro dos quartos, abençoados no altar, não se brinca. Carregar culpa é coisa muito ruim. Para se comungar era preciso, primeiro, se desvencilhar delas, as quais, por mais mínimas fossem, não deviam ser poucas, dados os muitos cansaços que o trabalho da roça provocavam, e a premência do sono exigia. Segundo, pelos ensinamentos dos padres e da Santa Madre Igreja, da época, que não economizavam queimaduras no inferno, valha-nos Deus, Nosso Senhor!.
Naquele dia, o casal e o filho, ainda carregado na cabeceira do arreio, saíram cedo, acompanhados pelo cachorro da casa que, não havia muito, adotaram, a pedido de um amigo, morador de cidade, que julgava o animal sofrendo com a falta do que fazer. Na roça, teria mais serventia. O bicho se afeiçoara aos novos donos e não os largava nem para se irmanar com os demais representantes da raça que, naquelas ocasiões de festa no arraial, aproveitavam para medir força e rosnarem seus ciúmes naturais.
Durante a missa o Peri ficara do lado de fora da igreja, a cabeça apoiada nas patas dianteiras e o olhar observador sobre quem entrava ou saía. Ninguém o importunou e por lá ficou, até quando o padre deu as últimas recomendações de temor a Deus. Encerrada a cerimônia, o cão esperou até que seus donos passassem diante de seus olhares submissos, para acompanhá-los aonde dirigissem seus passos. Dizem que cachorro entra na igreja por encontrá-la aberta, mas com o Peri, esse não foi o caso. Tinha brios e sabia o seu lugar na porta da capela, afastado o suficiente para não ser incomodado com possíveis “sai pra lá”, nem incomodar os fiéis com algum eventual rosnado de agravo, ou ganido de dor nas costelas.
Ali por perto ficava a casa de uma sobrinha do Silvestrão, a Doralinda, conhecida do casal, mas não do cachorro. Aproveitaram para fazer-lhe uma visita. A Doralinda era muito popular no arraial, e sua casa era grande, mas costumava abrigar mais gente do que permitia. Se em igreja cachorro entra por apanhar a porta aberta, desta vez, o Peri não teve outra escolha senão entrar, também, na casa, e se postar aos pés da dona, sempre de cabeça por sobre as mãos e o olhar de expectativa e piedade.

Ocorre que o Silvestrão, tio da anfitriã, veio vindo, entrando da banda da rua. Sem se dar pela presença do animal, tropeçou-se nele. Dando-lhe um pontapé nas traseiras, enxotou-o dali pra fora, enquanto esbravejava: ”Quem é o dono dessa assombração?” Minha mãe, que nunca deixava o mingau esfriar na beirada do prato, nem a língua pregar-lhe no céu da boca, respondeu de rompante e o olhar fuzilante: “Essa assombração é minha! Se quiser passar, passe por cima!” Diante do acontecido e da sem-gracesa geral, o jeito foi se retirar, em busca do marido e do caminho de casa.
A amizade com a Doralinda arrefeceu, e com o Silvestrão esfriou de vez. Em casa, quando o assunto girava sobre história de cachorro, sobretudo lá pelos arruados do Panta, minha mãe acrescentava que lugar de cachorro de roça é na porta da igreja, ou do lado de fora das casas, talvez arrependida da língua solta que, por natureza, não podia deixar de ter.