sábado, 25 de agosto de 2012

Pensares a conta-gotas (132)


Não reparem na roupa que uso,
e nos alinhavos
que faço, no fuso.

Não meçam o fio que teço,
e o algodão
de que me abasteço.

Não analisem o pano que urdo,
e os bordados
que faço, de tudo.

Os textos, devagar, trespasso,
no interesse do final produto,
de cada jeito e compasso.




O que se pode fazer
diante disso tudo?
Dizer, simplesmente,
que se é mudo?

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Contos contados de Minas (47)

A pescaria 

É certo que histórias de pescador ou de caçador nem sempre são mentirosas. Podem, até, ser exageradas para engrandecerem os feitos dos atores. Mas, falaciosas, jamais, que pescadores e caçadores, do muito que carregam nos embornais, o maior pedaço é reservado a verdade. O resto fica para as tralhas de caça ou de pesca, e um pouco se reserva à matalotagem, porque nem sempre se caça e se pesca para encher barriga de contador de causo ou de quem aprecia jogar conversa fora. O tempo para a espera da lebre ou do peixe se reserva, também, para se articular as explicações do que se caçou ou se pescou, muito ou nada, ou só criadas na imaginação, o que tem garantida a verossimilhança.
Em geral, os lugares freqüentados por estes atores da chamada mentira, misturada com verdade, são sempre dificultosos. Beira de rios, lugares desertos de gente, descampados, capões de mato. Muito perigo, porque, além de caçadores e pescadores, perambulam por essas bandas, as sombras. Sozinhos, para não espantarem os animais, nem a imaginação os dispersar e dissipar.
Sair das garras de uma onça pintada ou vermelha, jaguatirica, gata do mato, faminta ou com crias recentes, faz crescer as imagens de quem escuta e, sobretudo, de quem conta. Pescar o peixe maior do mundo nunca teve a contrapartida para servir de contraditório. O prazer nem sempre vem da veracidade dos fatos. Uma mentira bem contada, como toda ficção, desperta mais a atenção do que um relatório de verdades administrativas. Ouvir um bom ou quase “mentiroso” pescador dá mais prazer, do que sabe proporcionar o amante da satisfatória “verdade”. Tudo resulta na mesma, que o absoluto, mesmo, neste mundo, só a Deus pertence. Estão aí, nas estantes, Simões Lopez Neto, Graciliano Ramos, e outros ficcionistas, para não me deixar mentir sozinho e me dar aval.
Assim dizendo, há dias em que o tempo não está para peixe, nem mesmo a água, por fria ou demais parada. Pode, até, não estar, mesmo, para nada, só para preguiça, de sombrinha na beira d´água, anzol banhando minhocas, e a engenhoca do cérebro molemolente, pensando na morte da bezerra. Melhor dizendo, matutando o passado, que não mais se endireita. Pau que nasce torto... Igual a cabo de guatambu, bom só quando tirado verde, sapecado em fogo de palha, dependurado em sedenho, no caibro do telhado, para se poder encabar enxada, foice, enxadão... Depois de arqueado, vira porrete para botar respeito nas vacas ciumentas de crias novas.
Não sou de muita experiência em pescaria. Caçadas, então, nem tiro dei em passarinho, quando menino, com espingarda de chumbinho miúdo. Andei jogando anzol “olho de mosquito”, iscado com umas minhoquinhas, dessas vermelhinhas, de beira de rego, para deleite de piabinhas, lambaris prateados, frequentadores de pocinhos de brejo, cabeça de bica, pequenos cursos d´água. Tudo isso, sem malícia, e muitas vontades. Mais tarde, aventurei-me em córregos mais avantajados, profundos e frios, à beira de mato e silêncios. Alí, já apareciam uns bagrezinhos bigodudos, umas sete-léguas compridas, como não deixa mentir o nome, umas tubaranas, piabonas, ou, talvez, piaparas. Depois, em beiras de açudes, pequenas lagoas, também, antes de serem povoados de alevinos diversos, de nomes esquisitos, produzidos em criatórios da cidade. Ali, podia-se, ainda, encontrar peixes mandis, piaus, que a própria natureza se encarregava de disseminar. Até passarinhos costumam povoar esses banhados com ovos de fêmeas de peixes mal digeridas. Existem tantas dessas coisas que nem Deus acredita!
Quando tive, por força do destino, que viajar para mais longe, fui instado, pela família da mulher, a conhecer cursos d´água de bem maiores tamanhos: Tietê, Feio, do Peixe, próximos de cidade grande. Mas confesso que, mesmo nessas ocasiões, não fui bem sucedido em minhas fantasias e tentativas de fisgar peixe grande, mais briguento, e que desse, pelo menos, para tapar o buraco do dente, como se diz em beira de balcão de botequim, com certo exagero, no deguste da pinguinha, para sacudir o marasmo dos braços e do sedentarismo.
Mas um dia..., em que o Rio do Peixe não estava para peixe, algo aconteceu. Meus companheiros, experientes e conhecedores do lugar e de barrancos, andavam daqui prali, sem conseguirem um puxãozinho que fosse. Era só assistir anzol e pedaços de minhocuçu a tomarem banho, entrando n´água, e saindo cada vez mais enxaguados. Quanto a mim, nem mudava de lugar, acreditando, apertando os dedos no pensamento positivo, à espera de que ainda pudesse surpreender meus parceiros. Comentam que o gostoso da pescaria é a expectativa, e, não, a quantidade de peixe pescado a se levar para casa. Fosse assim, estes pegue-e-pagues urbanos seriam mais atraentes e mais povoados de gente graúda.
O certo foi que, em dado momento, cansei do banco à beira do barranco e resolvi mudar a isca e o anzol de lugar, para ver se não voltaria para casa sem, sequer, a sensação de um beliscão, desmotivado para uma prosa mais comprida, e, menos exagerada. Qual não foi minha surpresa, ao levantar uma corvina, que veio sem muito ondular a linha de náilon! Parecia morta. Ao retirá-la do anzol, não pude acreditar no que vi, nem deixar de chamar os companheiros para o que acontecera. O peixe tinha sido fisgado no ponto, onde deveria descomer o que nem comer apetecera, naquele dia mormacento. A explicação mais plausível para a inusitada façanha, foi a de que o infeliz fora surpreendido pela retirada brusca do anzol, justo no momento em que passava rebolando desinteresse, por sobre a fisga do anzol, que o atingiu, no ponto crucial que nem ele poderia imaginar.
História de pescador? Nem tanto. Voltar para casa, sem peixe e sem o que contar, é que não poderia acontecer, mesmo que fosse só o tanto de não deixar fama ou conversa esfriarem.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Contos contados de Minas (46)

O Noturno  

Questão de vocabulário, o soar-me estranho, para nunca mais esquecer, dos sons lúgubres e soturnos dos aviões que, à noite, passavam por sobre nossa casa e cabeças perdidas em meio à solidão dos altos da Fulminante. Diziam as pessoas mais velhas, entre elas meu pai, de pouquíssimas letras, tratar-se do “noturno”.
Quando, à noite, o sono despregava-se de mim, ouvia, na escuridão do quarto, aquele som fanho que vinha vindo do longe. Chegava, cada vez mais presente sobre nossas consciências, e fazia-me lembrar do prognóstico de minha mãe, de que barulhos daqueles, à noite, prenunciavam transporte de algum defunto ou moribundo. Só a morte, ou a iminência dela, justificaria viagens de tamanha urgência e perigo, no vazio do escuro dos espaços imensos.
Quis a sina que eu viesse a utilizar-me daquele transporte por diversas vezes e por largos espaços de tempo. Estar ali, a doze mil metros de altura, à noite, varando continentes, embrulhado em cobertores, os olhos arregalados, a pensar que, lá embaixo, crianças estariam acordadas, escutando aquele som contínuo de motores, faz-me, ainda, mais pensativo do quanto se é pequeno e frágil na imensidão dos ares.
Santo Exupéry, em Terra dos Homens, retratou, de dentro de um desses aparelhos mais pesados do que o ar, essa nossa insignificância. Mesmo que diminua nossas distâncias, ela nos domina e nos deixa tão reduzidos às incertezas da existência sobre esse planeta. Quando se pensa, daquelas alturas, que cá embaixo pessoas estejam, também, pensando em nós, nos ouvindo e cismando, um existencial mistério se estabelece.
O escritor francês, já, naqueles tempos, em que raros aviões contemplavam nossas paisagens terrenas, se perguntava diante do infinito: “Tenho sempre, diante dos olhos, a imagem de minha primeira noite de voo, na Argentina, uma noite escura em que sozinhas cintilavam, como estrelas, as raras luzes esparsas na planície. Cada uma assinalava, naquele oceano de trevas, o milagre da consciência. »
Por falar em mundos e insignificâncias, ainda um pequeno trecho do conto “Blanc et Bleu” do livro “Misti” de Guy de Maupassant: “... eu pensava nesta pobre e pequena humanidade, neste pó de vida, tão ínfima e atormentada, que fervilhava sobre este grão de areia perdido na poeira dos mundos, neste miserável rebanho de homens, dizimado pelas doenças, esmagado pelas avalanches, sacudido e amedrontado pelos terremotos, nestes pobres seres invisíveis a um quilômetro, e tão loucos, tão vaidosos, tão briguentos, que se entrematam, tendo apenas alguns dias para viver. Eu comparava as pequenas mariposas que vivem algumas horas aos animais que vivem alguns anos, aos universos que vivem alguns séculos. O que pensar de tudo isso?”
Uma dessas consciências, de que há bilhões espalhadas pelo mundo, pode bem ter sido a de um menino medroso, à espera de que o sono chegasse e levasse consigo a lamparina de querosene, para economia de combustível,  deixando um rastro de fuligem pelo quarto, a tingir de escuro, narinas e pulmões ainda em começos de vida.
Os “noturnos” continuarão a passar sobre nossas cabeças, cada vez mais numerosos, cada vez mais altos, cada vez menos barulhentos, sem deixarem de ser cada vez mais misteriosos e temíveis. Alcançaremos os planetas mais próximos, as estrelas mais longínquas. Nem por isso,  deixaremos de avançar na conquista de nossas cada dia mais frágeis compreensões de nós mesmos e de nossos semelhantes, tão díspares vizinhos.
Lá de bem distante, certamente, nossos representantes se lembrarão de se comparar com os que ficaram aqui, também distantes, Não deverão se julgar possuídos de super poderes, porque a humildade e a consciência de sua pequenez serão sempre o norte que tanto procuram.

domingo, 19 de agosto de 2012

Pensares a conta-gotas (131)

(Noturnos)

Noites de vampiros famintos,
denteagudos, esvoaçantes,
a tecerem crinas indefesas,
a sugarem o desassossego
dos que berram dores lancinantes;

Fome de corujas acordadas,
de olhos arregalados,
a abrirem bicos, por instinto,
e piarem desaforos,
de foro íntimo;

Imagem de carros recostados,
cabeçalho ao chão, recavém aos ventos,  
a reclamarem bois,
que cochilam seus cansaços,
lá no pasto, do sustento;

Lua, no compasso de nuvens,
ora acendendo, ora apagando
estrelas as mais coesas,
a sugerirem incertezas,
ora tristezas, ora lamentos;

Noite de medos encapuzados,
a beberem sangue de bezerros,
a incitarem afoitos cavalos,
enquanto homens insones
recordam mendigos passados.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Pensares a conta-gotas (130)




Que venha, como ladra, a morte
roubar-me a vida, sem perceber,
sem mais sofrer de contragostos,
dos anos de saúde e bom viver.




Quantas notícias em jornais,
em anais e lugares mais,
quanta vontade de destruição,
quantos assassinatos e extermínios,
quantas Columbines ainda virão,
para a cruenta e cabal saciedade,
na volta dos soldados transidos,
revoltados das tormentas,
cabeças de cérebros cozidos,
nas idéias em reviravoltas, agourentas,
das areias de desertos exauridos,
loucas varridas, de falidas verdades,
sedentas de sempre mais atrocidades?

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Pensares a conta-gotas (129)

(Pai)

Por que o olhar furioso,
se, no fundo, era bondoso?
Por que o sorriso para dentro,
Se, a outros ria fácil, de momento?
Por que escondia sentimentos,
se podia revelar-se por inteiro?
Por que não se abria, em leque,
verdadeiro,
sem os mais mínimos
constrangimentos?

Ele era todo, assim, desfeito,
em querer dar em tudo ao respeito.
Por que, malgrado, nos ensinou,
a ser como na prática também somos,
se a natureza, que tanto amou,
se revela, na obra da criação,
aberta janela,
sem se imolar, sem se queimar,
como se consuma, na pedra,
uma vela?

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Pensares a conta-gotas (128)

Pra tudo chega a hora.
Hora de amar, de dormir,
de acordar, de trabalhar,
hora de laser e de viver.

Chega a hora severa,
em que não há mais razão
de existir nesta esfera.

Por que, então, não partir
para outro lugar,
e evitar o padecer de ficar?

Por que não poupar aos próximos
a evidência de uma vela
a se desfazer, aos poucos?

Caso a vida ainda seja corrida,
guiada de lucidez,
que mais corra!

Caso ela seja posse da insânia,
que antes morra,
mais uma vez!