segunda-feira, 16 de julho de 2012

Pensares a conta-gotas (123)

Recuso-me a ser apenas
pó de esterco ao vento,
como se minha poeira fosse
só alimento
de plantas rasteiras.

Afaste-se essa dose
de dúvidas imensas,
de existências terrenas,
marcianas, alienígenas,
distantes, frias e vazias.

A energia, que, ainda,
em mim habita e anima,
é minha alma
de insaciáveis vontades
de sobreviver à cal...ma.




Quando morrer,
não quero ouvir de ninguém
que fui tudo aquilo,
que menos fui,
em vida.

Todos sabem,
mas não falam,
que não farei falta,
nas fileiras de rodas,
da vida.

Quem mais saberá
o que serei,
senão eu que, ali, inerte,
a tudo, em volta,
só, ouvirei?

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Pensares a conta-gotas (122)

À noite, o medo me deixa sujeito
a que o dia ainda tarde,
e me plasme, nas escuras, a pensar
nos dias, cada dia mais cedo,
de menos luz, de mais esperas,
de mais desejos insatifeitos,
de mais medos a vigiar,
do que quando me deito.




Mais depressa do que gostariam os mais sequazes,
a Terra se tornará Marte,
como outros mundos bem próximos da morte,
desnudados de vidas e do quanto lhes é sorte,
à insensatez desses vorazes habitantes fugazes.

Todos os pluriversos, pelo que ainda não se sabe,
permanecerão impensáveis, ilimitados e sempiternos,
para abrigarem lugares de gentes decadentes,
acostumadas a só construir infernos
diferentes, mas doídos e ardentes.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Pensarres a conta-gotas (121)

Leio o poema, releio,
abandono autor e livro,
passo a outros convívios,
para mais reler
e pensar de permeio.

Vivo de pedaços e cotas,
visito, volto e transito,
insisto em pesar requisitos,
medito,
mesmo que só a conta-gotas.




Ouvir poesia parece coisa chata!
“Ora, direis, ouvir estrelas!
Por certo, perdeste o senso”.
Ler poesia parece coisa ingrata!
“Quem lê tantas notícias?”
Será  que a impaciência mata?

Para não se sentir condenado
A se tornar seu próprio ouvinte,
Lê para ser, mesmo que só de pedinte,
Lembrado dos que ainda se disponham
A enxergar nele mero esteta,
Quiçá, pretenso poeta!




As invenções de poetas
são coisas do fundo profundo
de insaciáveis ascetas, exegetas,
que bem poderiam livrar o mundo
de iracundos falsos profetas!

domingo, 8 de julho de 2012

Pensares a conta-gotas (120)

Acontece-me pensar,
sem nenhum desfavor,
atrevimento ou disfarce,
que ainda tenho a dizer
algo de algum valor
que não me fira e esgarce.




Se é para tecer textos de imagens irreais,
urdir de coragem as metalinguagens,
que venha, nos fios do fuso,
melhor calor do amor.

Se é para compor cores no crivo do bordado,
unir os fios gestados nos caminhos,
que venha no labirinto da textura,
linho, lã e criatura.

Se é para me calar no recôndito de mim,
utilizar a liberdade das palavras afins,
nos desafios das lavras úmidas, caladas,
que venham as muitas falas das leituras,
com mais riscos, menos rasuras.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Pensares a conta-gotas (119)

Se pensas que já morri,
ó figura da bruma!
enganas-te, que muito vivo,
precisando de ti.

Se pensas que ainda vivo,
saiba que apenas sobrevivo,
assim, determinado,
a ainda te encontrar,
caso não esquecestes de mim.

Tudo, neste mundo, é ir e voltar,
apressado, ou lento,
nada estático, definitivo, finado,
isento.





Agora, mesmo, neste momento,
exato,
já é o depois do instante passado,
tudo move, moveu e moverá,
neste mundo agitado.

O que fica dessa roda gigante,
onde somos apenas tripulantes,
é o desconhecido dos mistérios,
que sorvemos arfantes,
com o gás dos refrigérios.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Pensares a conta-gotas (118)

A vida de renúncias
foi de si mesmo.
Em lugar de viver
e satisfazer desejos,
padeceu indecisões,
labirintos de desperdícios,
de exercícios.

Viveu desinteresses,
sem fugir, entanto,
dos compromissos,
assumidos de ofício.
Renunciou à vida libada,
e continuou vivo, exausto,
como seqüela de claustro.




Chega de culpabilidades,
de pecados inconseqüentes,
de só proibido dos missais,
de mandamentos moldados
a desorientados ideais!

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Pensares a conta-gotas (117)

Sem mais nem por quê,
a  Fulminante passou a ser
uma palavra sem compromissos,
de difícil pronúncia e artifícios,
de som distante, de renúncia,
de ser ausente, omisso.




Se, antes, não soube dizer
“te amo”, como gostarias,
digo, agora, ao entardecer,
“te amei”, já arrependido
dos motivos que nem sei.




A árvore nem o conhecia,
mas estendeu-lhe sombra,
como manto e cama,
para repouso dos sonhos
e da fatigada alma.

A água fresca, do riacho,
corria-lhe ao pé,
em folguedos, ao lado,
para o gozo de viver
sagrado, harmonizado.