quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Pensares a conta-gotas (50)

(Convite)

Continuemos as eternas viagens,
Desocupemos as conhecidas paragens,
Evitemos os lugares já deixados,
Fujamos da monotonia das vias,
Procuremos horizontes mais longe,
Não façamos, das novas moradias,
Experiências de vidas, sem ousadias!




A gente só pode almejar o paraíso,
Que não há lugares nem infernos,
Com anseios eternos de maus anjos,
A nos aguardar,
Para mais sofrimentos e maldades,
Revoltas e pungentes gritos.

Somos criaturas ínfimas e anônimas,
Incapazes dos apregoados
Desmandos e rebuliços,
Nesses páramos de tempos infindos,
Sem conhecermos, de tais espaços,
Sítios bem mais bonitos.

Deus não poderá permitir castigos,
Em consonância com nossa ânsia
De sempre mais existirmos,
Sem culpas de carregar pecados herdados,
Sem que nos caiba decidir dos caminhos,
Nesse vagar de céus infinitos.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Contos contados de Minas (28)

O marido da professora

O menino era bom menino, bom aluno, e admirava muito a professora, que dele parecia também gostar. Ele tinha por ela muitos bons sentimentos, como, aliás, soe acontecer com a maioria dos antigos alunos de escolas primárias. que, adultos, guardam as melhores lembranças de suas primeiras mestras.
Ele sabia, também, onde as professoras moravam. Aliás, quase todos os alunos de cidade pequena sabem onde moram as professoras, de que cor são suas casas, quantas janelas têm e, até, a marca e a cor dos carros que, eventualmente, ficam estacionados nas garagens.
Também, os filhos das professoras são bastante conhecidos, sobretudo, se não correspondem à imagem de comportamento e civilidade a eles atrelada. As professoras costumam manter, em sala de aula, rígida disciplina com relação à postura e aos bons costumes de seus alunos. Assim, em casa, presume-se, deve acontecer a mesma coisa que na escola. Daquela professora, em especial, o menino estava muito bem informado, pois todo dia passava em frente à casa dela, de volta das aulas.
Os maridos das professoras, por sua vez, não costumam escapar à observação atenta dos alunos de suas esposas. Talvez, até, por merecerem uma ponta de ciúme por parte deles. Afinal, eram concorrentes na divisão dos afetos. Naquele tempo, elas, além de mestras, eram educadoras e distribuidoras dos carinhos, que, na maioria, os alunos tinham carência nas próprias famílias.
 Entretanto, o marido, no caso, mereceu ficar mais tempo na memória do menino, bem mais do que os outros maridos de professoras daquela pequena cidade do interior das Minas Gerais. E isso se explica e se escreve, para consolo ou catarse de quem, ainda, o conserva bem vivo na lembrança.
Um dia, vinha o menino passando novamente diante da casa da professora. O marido estava do lado de fora, parado na calçada, de costas para o gradil, novinho, como até ali o menino nunca notara. Parecia olhar para o tempo, para o vago, como sem saber o que fazer com as mãos, abertas, em busca de inspiração para algo desconhecido. O menino o reconheceu e, humildemente, correspondeu ao seu olhar indagativo. Ele, o marido, nem conjeturou sobre quem desviava os olhares, quem era quem, embora soubesse que não era, aquela, a primeira vez que o via passando por ali, admirando-lhe a casa e a pessoa.
Mas é que está a chave da história. Ao notar aquele menino de olhar admirativo, uniformizado, egresso de alguma sala de aula nos arredores, de mãos ocupadas com os objetos escolares, o ar submisso de quem guarda uma reverência incontida, prova de respeito aos mais velhos e, mais ainda, àqueles ou àquelas cujo destino alçou à categoria dos que ensinam as boas maneiras, dirigiu-se a ele e, num gesto inusitado, afagou-lhe os cabelos, com mãos escorregadias de veludo, como somente um marido de professora teria a idéia de o fazer.
Aquele gesto não era um simples gesto, de alguém que afagapor afagar, de quem acaricia por acariciar. Era a postura esperada de quem só podia depositar um carinho condizente com a investidura do insigne posto de cônjuge de professora. Quem mais poderia ter a idéia de semelhante atitude, assim, na calçada, bem em frente ao gradil de sua casa, à vista de mais pessoas? Assim, pensou o menino.
Isso feito, apressou os passos, adiantou caminho, satisfeito, feliz, a alma parece que, naquele dia, mais leve. Que bom ser querido, premiado com  carícias oferecidas, tão espontaneamente, ainda mais em se tratando do próprio marido da professora! Ela, própria, quem sabe, nunca poderia dedicar gesto tão cheio de afetividade a seus alunos. Parecia-lhe, até, que o caminho de casa encurtara, tão doces os pensamentos que acompanhavam-lhe os passos. Afinal, não era qualquer menino de escola a merecer a sorte de sentir em sua cabeça mãos tão caras, como aquelas do marido da professora.
Chegou em casa, depositou, como sempre, os objetos de escola no lugar costumeiro. Tirou o uniforme para não sujá-lo, deixando-o dependurado atrás da porta do quarto, em ordem, para o dia seguinte. Vestiu a roupa da zurra diária, um tanto enxovalhada. Lembrou-se, mais uma vez, do afago de há pouco, oferecido pelo marido da professora. Esta nunca passaria, assim, por tão repetidas vezes, as mãos na cabeça dos alunos, acariciando-lhes os cabelos. E, para, mais uma vez reviver aqueles afetuosos momentos, tão significativos em sua ainda pouca existência, passou, ele próprio, as mãos por onde havia pouco deslizaram mãos tão honradas.
            Mas um susto o alfinetou no fundo da alma, bem no fundo, onde a dor  marca forte e as cicatrizes nunca mais desaparecem. Alguma coisa grudou-lhe nas mãos e espelhou-lhe uma cara suja, impressa na mesma tinta que, simplesmente, trocara de mãos, sujando-lhe a lembrança de inocente menino de escola. Era da mesma cor que a do gradil da casa da professora.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Contos contados de Minas (27)


O cavalo branco

Sem nome, velhaco, assustado, o cavalo branco não entrava no curral, a não ser na base do grito ou nas ameaças de pedradas no lombo. Abaixar e simular a cata de algo para acertar-lhe as costas já o fazia correr para as beiras do curral. Coitado! Já devia ter levado, anteriormente, umas boas pedradas nos costados. Era ruim de cela, trotão e servia mesmo para a lida mais severa, nas proximidades do terreiro. E olhe , que o chão é, quase em toda a parte, demasiado duro!
Quem andava nele mesmo era o Gê, que ainda tinha o desplante de dizer que eu, embora vivendo longe, é que costumava cavalgá-lo, mais do que ele próprio. É certo que fiz, em seu dorso, uma viagem um pouco mais longa, lá pelos lados das nascentes do Espírito Santo. Fui em companhia do próprio Gê, à busca de um outro animal que se encontrava com o Geraldinho, amansador de cavalos, muito respeitado pelo pessoal da redondeza.
A tal animália em preparo de sela, era o Pampa, recém amansado, forte, bom de porte, vistoso, mas, pelas referências do Geraldinho,  não tinha jeito de ser mais ruim de montaria. Ninguém conseguiria, como, por sinal, não conseguiu, utilizá-lo como animal de cavalgadura. Parecia trepidação de carro de pneu em estrada de chão batido, cheia de costelas de vaca, destas de dar aos motoristas com os cocurutos no teto do veículo. Talvez uma carroça lhe teria sido de boa monta, porque muita força ele tinha. Isso, depois de vencida a magreza, é claro, dos dias de doma. Acabou sendo vendido por muito pouco dinheiro, para deixar de só amolar as éguas e passar aos descendentes os gens de trotão, que não era de todo privado de seus dotes os mais naturais. Não teve história, nem sequer deixou rebentos. Foi vendido não se sabe como, e deve ter findado seus dias no esquecimento ou em alguma lataria de embutidos.
Como dizia, no cavalo branco, pouco andei, uma vez que, nas poucas vezes que fui à Fulminante, não o encontrei à minha disposição, por estar em outros campos, no Brejo Comprido, por exemplo, com os demais cavalos de , não se sabe por quê! Ou se sabe, para não dizer!
Desde quando o vi, gostei de seu porte, de seu jeito de trotar, a cabeça e o rabo levantados, corpulento, as pernas firmes e fortes, cheio de vitalidade, aspectos pouco presentes em um animal já desprovido de suas capacidades reprodutivas. Talvez por admirá-lo, assim, passaram a dizer que o cavalo era meu, por doação de minha mãe, que desde a morte de meu pai, veio ser também a dona dos animais machos. Antes só era das éguas, à época, de valor somente para dar crias, preferencialmente, a potrinhos másculos.
No começo, cheguei até a me acostumar com a idéia da posse, pois, afinal, eu também era filho de minha mãe, que dele jamais fizera uso. Entretanto, fui perdendo a crença por ser um cavalo de andar duro, e por quase nunca ficar sob minha custódia e serventia. Cavalo não pode estar à mercê de modos diferentes de lida. Normalmente, se afeiçoa à pessoa que o maneia, e passa a compartilhar um pouco de sua personalidade, diferentemente, de um muar que, no dizer geral, é animal do sereno, de temperamento híbrido, de sangue misturado. Se aquele não entende duas linguagens, este não compartilha língua nenhuma. O Branco passou a entender os modos do Gê, e a obedecer a ralhados, além de tapas nas ancas e outros menores sustos.
Além de matreiro e espantado, fungava. Olhava de lado na hora de encilhá-lo e emitia aquele barulho esquisito com as ventas, parecendo dizer para o desavisado: “cuidado comigo, que não sou de dar trelas a confiança, e bem posso aprontar uma com você, que nem sabe jogar a sela com a devida desenvoltura!” Mas passava de mera impressão. No fundo, era bom animal, até dócil, uma vez encima dele. , ali, se podia sentir firmeza e segurança. Aliás, este estranho proceder se explicava pelos tratos que sempre tivera, desde quando viera do amansador. O tinha um pensar, de que a solução para animal velhaco era taca. E como o Branco nunca pôde distinguir outras maneiras de ser tratado, se com carinho, se com ralhado, ameaças de tapa nas ancas, o jeito de impor algum respeito era fungar, tremer o couro do lombo, parecendo insinuar a que se procurasse outro cavalo qualquer em seu lugar, para o que fosse preciso.
Poucas vezes, tentei conquistá-lo, demonstrar-lhe boas intenções, fazê-lo gostar de mim. Colocava-o em curral separado, fixava o olhar no seu, e ia conversando com ele, a mão cheia do agrado de que mais gostava: sal mineral. De longe ele percebia o que lhe estava sendo oferecido em troca de amistosa aproximação. Esticava as orelhas, adocicava o olhar, distendia as orelhas, demonstrando todo o interesse em lamber o petisco. Naquele querendo sem querer, ele vinha, eu ia. Ele cedia um passo de , eu outro de , até ele cheirar o mimo irresistível. Antes, porém, tinha que me deixar acariciar-lhe o focinho, o que consentia depois de muito relutar.
Conseguimos grandes progressos, que, infelizmente, se revelavam pouco producentes, devido às minhas longas ausências e às suas fatais recaídas, e conseqüentes rebeldias.
Em uma de minhas raras saídas no cavalo branco, o senti mancar. Parecia que tinha algo no casco. Uma pedra, talvez, poderia ter-se enfiado em uma das fendas da unha, causando-lhe desconforto. Cavaleiro mais perspicaz costuma retirá-la com um canivetão, desses que se guarda em bainha presa à cintura. Mas a providência, ali, não foi tomada, até porque o Branco não daria a pata ofendida, assim, facilmente, para quem temia o barulho de suas fungações desaprovadoras. O melhor mesmo era deixá-lo inativo, a um canto, para ver se a manqueira desaparecia, ou, mesmo, que a pedra caísse, por si só, nos desvãos dos caminhos pedregosos daquelas alturas.
A dúvida persistiu até que o Gui, um vizinho, que não saía de cima de cavalo, contrastando seus antepassados, inconfundíveis pedestres, apareceu lá na beira do curral, e, com o olhar furão, perguntou: “Uai, sô, o que aconteceu com o daquele cavalo, inchado daquele jeito?” Era o modo de falar, pois o Gui conhecia o cavalo branco, de outra feita, quando o desvencilhou de uma maçaroca de arame farpado, que só faltou-lhe rotular uma das patas traseiras, por sinal, aquela onde o inchaço ora se evidenciava.
Foi que eu dei do propalado “defeito” do Branco, e fui logo decretando que em cavalo machucado não se andaria mais. Mas ordem de quem apenas se faz de dono não pega no pano. Além do mais, os interessados na possível serventia do animal vieram a dizer que ele sempre apresentara aquela ”ova” no tornozelo traseiro, e que isso não era empecilho para o trabalho. Com ova ou sem ova, o certo é que eu falei: “daqui pra frente o correto é deixá-lo sem sofrer. Afinal, dor é dor e, em qualquer vivente dói, para avisar que onde dói há algo a se curar. O tempo o fará livrar-se da claudicância”.
Mas, acharam que o melhor seria vendê-lo, coniventes com a provável falta de escrúpulos dos futuros donos em deixar aumentar-lhe o sofrimento. Esse foi o desenlace para o que ainda não encontrara solução. Vale dizer, no caso, o dito: "o que não está remediado, remediado está".
Hoje, penso, com saibo de omissão: melhor teria sido, para o cavalo branco, ficar sob meus olhares, enquanto sua avançada idade fosse permitindo, sem se entregar a maus tratos, de quem não tem sensibilidade com as dores alheias. Preferível vê-lo rodear a casa, de olhar malicioso, e pescoço encurvado, para melhor julgar da intenção de quem lá vinha. Pelo menos, assim, deveria impressionar os visitantes com aquele porte majestoso, altivo, como se garanhão ainda fosse.
           A soma de duzentos reais, pela sua estampa, nas fotos que deixou, sobejamente, pagaria. Foi-se o cavalo branco, para não ser mais lembrado, mas ficou a frustração do desafio da conquista de mútua confiança.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Pensares a conta-gotas (49)

Antes rezei, em longas horas,
Muito mais da boca para fora
Oro, agora, do fundo d´alma
Em breves segundos de calma
Penso encontrar suporte
Na prece que sempre me aflora
De bem viver, sem mais demora.


Ó, Senhora nossa Aparecida,
Santa negra nossa, negra santa,
No rio de lamas naufragada,
Desnuda das águas e ramas,
Em farto manto revestida,
De aparências de pouca vista,
De mais vestes, de menos vida,

Proteja-nos das forjadas falácias,
Que nos invadem de todos os lados,
E nos assustam de todos os cantos,
E nos ameaçam de tantas normas,
Mais céticos, menos santos, de jeitos
Mais cheios de ornatos e de formas,
Que de encantos e reais efeitos.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Contos contados de Minas (26)

Seu Lazinho e os remédios da madrinha

Seu Lazinho era casado com a Escolástica e foi buscar remédio para a doença nos olhos da filha, e dilatar, por mais alguns dias, pelo prazo de arranjar um automóvel, que pudesse levá-los até Campinas, lugar de mais recursos, como havia feito, por diversas vezes, o vizinho Cesário, quando do incômodo nas vistas da filha Luzia.
A “madrinha Borges” era nora do Zeca Joaquim, conhecedores das artes de cura com remédios caseiros. Para tanto, bastava-lhes dar uma saídinha na horta ou no cerrado, ali, por perto, que logo iam reconhecendo ramos e raízes para os males que afligiam os humildes moradores do lugar. A fama de conhecedora das mezinhas, que sanavam os males mais corriqueiros, corria longe e, até, algumas vezes, conta-se, curara males sem cura. Vira e mexe batia à sua porta alguém precisando de umchá”. “Meu filho amanheceu assim, minha filha anoiteceu assada, eu, há muito, não ando prestando para o serviço, a minha mulher vive reclamando de dor nas cadeiras, minha mãe, coitada, está morre não morre, que nem se pode pensar”. E, assim, era o debulhar de um rosário de queixas.
A “madrinha” dava um jeito em quase tudo, até em gente que sofria “acesso”, uma espécie de convulsão epiléptica devida a misturadas de comida. A tal misturada fazia estragos, e menino danado devia saber que manga com banana, com leite, com ovo, com jabuticaba, provocava a tal doença que deixava seqüela para toda a vida, como aconteceu com o filho de fulano, com a filha de sicrana, com o pai de beltrano. Garapa de cana depois das refeições chamava “corujão” outremelique”, na certa. È bem verdade que mais tarde se soube, que aqueles temores significavam rapaduras a mais no jirau por sobre a fornalha ou na despensa.do casarão. Mas, disso, ninguém mais tem noção. Coisa dos antigos donos de engenho, mantidos à custa de mão de obra cativa e comilona.
            Seu Lazinho, naquele dia, queria o tal remédio para a filha, enquanto providenciava o “especial” que pudesse levá-la em centro mais garantido. Com olhos não se devia brincar, que “as vistas eram o bem mais precioso com que se possa contar”. A viagem devia ser longa e cara, mas Seu Lazinho tinha folga de arcar com todas as despesas, embora dinheiro não fosse assim de se gastar com facilidades, de pensamento ruralista como ele.
A "madrinha" aconselhou-o a ir lavando os olhos da menina com um capucho de algodão embebido em xixi de criança de até dois anos, enquanto esperasse. A água, onde se descansasse um raminho de arruda, também seria de grande valia.  Assim, Seu Lazinho voltou para casa confiante, e com a alma mais sossegada.
 Dias depois, chegava, novamente, Seu Lazinho, de passos largos à casa da “madrinha” para agradecer-lhe pela cura da filha. O tal medicamento fora um santo remédio. Curara o mal e, ainda por cima, fê-lo economizar o dinheirão da viagem até Campinas.
Com o tempo esse tipo de charlatanice foi caindo em desgraça com as facilidades de se conseguir solução diretamente nas farmácias da cidade. Nem manipular os farmacêuticos precisavam mais, com as multinacionais do ramo a abastecer farmácias e drogarias. As leis foram ficando mais rígidas com aqueles que se atreviam a “medicarpor conta própria. Sumiram os raizeiros, escassearam os conhecedores dos princípios ativos das plantas. O Aristeu, por exemplo, de Grupiara, nas vizinhanças do Paranaíba, não deixou discípulo que soubesse preparar as “garrafadas”, que gente de longe vinha aviar. A “madrinha Borges”, quando muito, deixou laivos de crença, a correrem nas veias de seus pósteros.
           Entretanto, ainda sói aparecer, diante das câmeras de tevês, algum corajoso adepto das mezinhas, a relembrar remédios passados. Talvez, até, pela estranheza do mesmo, ou por ter ouvido falar dos antigos parentes charlatães, sem se esquecer de acrescentar a fórmula redentora de “em caso de dúvida” não deixar de procurar o médico. Há também os descrentes da modernidade, e dos donos de negócios fármacos rentáveis, na cada vez mais pouca saúde e educação, no país das incertezas.

domingo, 27 de novembro de 2011

Contos contados de Minas (25)

            Coisas fáceis e difíceis 

Meu pai nunca disse para ninguém gostar das coisas difíceis, mas como sempre citava um de seus irmãos que gostava das coisas fáceis, parecia sugerir que gostava mesmo era das difíceis, em detrimento das fáceis. Qual a graça, a não ser um grande ensinamento relacionado ao afrouxamento dos ânimos, que se evidencia cada vez mais na atual sociedade de consumo, na qual se vê imperarem as muitas vontades, em prejuízo da cada vez mais pouca força de vontade.
Dizem que o império romano começou a se decompor devido às facilidades que cada vez mais tomava conta dos ânimos de seus cidadãos. O corpo humano gosta de sombra e água fresca. O trabalho duro, que não precisa ser apenas braçal, requer sair-se ao sol e suar a camisa. Ninguém pode negar que se valoriza mais o que se ganha com o próprio esforço, em detrimento do que outros ganharam, para deixaram como herança aos filhos. Os “filhinhos de papai” sempre foram mais perdulários do que os filhinhos de carentes, ou de quem não adotou a idéia de facilitar em demasia a vida deles.
No volume primeiro do ensaio que Alain Peyrefitte dedicou à China (“Quando a China despertar o mundo tremerá” (1973), o autor confirma a veracidade desse inconveniente da vida fácil: “À medida que o conforto aumenta, o nível de resistência à dor abaixa. Os aparelhos de ar condicionado levam à vulnerabilidade ao calor e os aquecedores domésticos ao frio e o progresso material à hipersensibilidade.(...) Pouco a pouco, se enfraquecem os mecanismos de autodefesa, que uma vida austera oferecia para proteger da doença e do sofrimento.”(p. 200-1) A sociedade chinesa, por enquanto, exemplifica esta teoria de que a vida fácil traz prejuízos sobre todos os pontos de vista. Os camponeses, sustentáculos das revoluções chinesas, assim como  em todas as partes do mundo, sempre foram mais rígidos nos costumes e menos gastadores do dinheiro que sofrem para ganhar. Os citadinos encontram o alimento nas prateleiras dos supermercados, enquanto aqueles o retiram, muitas vezes, da própria terra, que suam ao lavorar.
Assim, meu pai, instintivamente, procurava impor aos filhos sua prática de rigor, em comparação a pessoas da própria família que escolhiam os caminhos mais curtos para se chegar ao mesmo ponto. Bobo de quem assim procede, pensam os adeptos do conforto e do pragmatismo, teoria que ele, por ser quase analfabeto, nunca poderia tirar dos livros, mas de seu instinto e sobrevivência em contato com a natureza.
Lembro-me de que, numa certa ocasião, estando eu já cursando a universidade e ciente de que a vida difícil deveria ser colocada em segundo plano, pude fazer-lhe ver que sua maneira de pensar não mais se adequava  aos novos tempos. Estava ele fazendo uma cerca quando vim em visita à família nas terras onde morava. Fui encontrá-lo em pleno esforço de levar um tronco de árvore, previamente preparado para esticador de arame, para conter-lhe a força nos contornos da divisória. Um buraco também já tinha sido preparado de antemão para receber a madeira. Esticador e buraco se encontravam a uma boa distância um do outro, e meu pai usava uma pesada alavanca de ferro fundido, para, aos poucos, aproximá-los, com o revezamento de forças distribuídas nas extremidades do volumoso tronco.
Eu estava ali vendo aquele esforço sem poder ajudá-lo, ao mesmo tempo em que procurava uma idéia de como minorar-lhe o trabalho. A ocasião surgiu como se eu a tivesse feito chegar propositalmente. Naquele exato momento, passava ali ao lado o meeiro da fazenda, com quatro bois carreiros devidamente equipados com cangas, cambões e reforçada corrente, dessas de ferro que acompanham a tralha de um tradicional carro de bois. Ele estava a caminho de buscar algum galho de árvore seco nos pastos que servisse para fazer uma lenha para o fogão da mulher. Parei bois e carreiro, e disse a meu pai que aproveitasse a oportunidade para puxar o pesado esticador até o buraco. Bois carreiros deveriam servir, também, em tais empreendimentos. Meu pai, entretanto, recusou a ajuda dos animais e do empregado, ali disponíveis, e recomeçou sua estóica peleja. Fiquei pensando, à época, sobre o porquê de tão pouca racionalidade.
Por outro lado, minha mãe, também, parecia compartilhar-lhe a vida dura. Não tinha nenhuma precisão de extrapolar as atividades domésticas,  com uma penca de filhos a cuidar. Ainda, assim, encontrava tempo para ajudá-lo nas atividades externas e no trabalho pesado, mais reservado aos homens. Dizia sentir dó do marido. Este, mal acostumado com tais ofertas, desde os primeiros tempos de casados, passou a esperá-la para determinados trabalhos próximos à casa. A lida do gado, no curral, que começava já de madrugada, sem domingos, férias e feriados, era a mais desgastante. Acontecia, mesmo, de algumas vacas só aceitarem minha mãe para ordenhá-las. Por que não contratar alguém para ajudá-la, pensava eu. A explicação só podia vir daquela mania de querer provar para si própria que teria de dar conta de todos os serviços, custasse o que custasse. O contrário traduziria moleza, e ela, também, não aceitava vida de facilidades.
Diante de tais quadros, que qualquer vivente dos tempos modernos classificaria como irracionais, só se pode pensar que trabalho duro nunca diminuiu tempo de vida de ninguém, nem saúde e disposição para exercê-lo. O oposto se comprova com muita evidência. Dessas lembranças vem-me um texto curto, como alívio de consciência, e reconhecimento aos meus pais pelo que fizeram para facilitar-me a existência, com o exemplo da vida difícil:

Meu pai cumpriu seu tanto
de tamanho esforço.
Minha mãe, seu quinhão
de santo lenho.
Eu, de pouca coragem
e não mais empenho,
costumo parar para divagar
no meio do caminho,
sem ânimo, sem bússola,
as idéias em desalinho.
Nem tenho quase nenhum
apto engenho.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Contos contados de Minas (24)

Professora primária

Do ônibus desceu uma mulher fragilizada, equilibrando sobre pernas endurecidas o peso da idade e o cansaço de um passado esquecido. Apoiava-se nos braços do marido ainda válido, que a acompanhava em suas tentativas de solução, pelas graças de Deus e por lugares sagrados, de males que o tempo costuma carregar. vinha ela cambaleante à procura de satisfazer necessidades prementes e naturais. Mais atrás e mais espertos, o restante dos passageiros e, por último, uniformizado e de crachá bem à mostra, o motorista, responsável pelo transporte do grupo peregrino. O lugar não era ponto de almoço, e teria sido melhor procurar, para tanto, outro paradeiro mais adequado. Mas aquela casualidade teria que ser frutífera, pelo encontro que estava na iminência de acontecer.
Por ali, também perdidos pelas estradas, atentos ao tempo e às  intempéries, ele e acompanhantes de viagem se encontravam no ato de um frugal lanche de estica-pernas. A coincidência era grande. Não porque ele a conhecesse dos bancos de escola, por muito pouco não fora também seu ex-aluno, mas por afinidades de que o reconhecimento o fazia devedor. Ela fora professora de suas irmãs, de mais parentes, aos quais as circunstâncias não favoreciam a procura do saber em lugares urbanos, como viria acontecer consigo próprio. Por isso, mesmo, teve, ali, a oportunidade de cruzar-lhe o caminho, e dizer-lhe o que havia muito gostaria de ter dito, que um ato de reconhecimento por serviços prestados urgia de ser externado por quantos dela houvessem recebido os imorredouros benefícios da educação.
Ela era professora primária, sempre fora, e se orgulhava de ter sido. Professora de roça, quase. Morara, para exercer seu magistério, em um lugarejo que, além da igreja, do coreto, da casa paroquial, da casa de escola, da “casa da professora”, da venda e de mais uns ralos casebres espalhados ao deus-dará, pouca coisa mais atraía a atenção dos moradores circunvizinhos. Havia, é claro, as datas das festividades religiosas, ocasião em que o padre aparecia para celebrar os ofícios divinos e cuidar das almas esquecidas. No mais, o movimento do arraial era o chega-e-sai dos meninos e meninas que ali vinham em busca dos ensinamentos da distinta professora.
Além de seus misteres de mestra das primeiras letras e números, ela ajudava o pároco no preparo dos fiéis para os dias de visita, e das festas santificadas, no catecismo dos domingos, nos arranjos da igreja, nas leituras dos evangelhos e na preparação dos sacramentos. Raras as pessoas em condições para os serviços litúrgicos. Quando muito, carregavam o pálio, sob o qual caminhava o padre, portando o santíssimo nas procissões dos devotos.
A igreja ou “capela”, como era mais conhecida pelos moradores do lugar, era o monumento de maior projeção, e garantia lugar central de “patrimônio” da Igreja Católica, doação do proprietário das terras que circundavam o arraial. Expressava, como geralmente acontecia, um reconhecimento da devoção a determinado santo, ou mesmo, um pagamento de promessa por graça recebida. Um sonho, um parto difícil, um filho salvo de doença grave, um milagre acontecido levavam a se erigir um templo, por mais simples fosse, ao santo da devoção. No caso, o padroeiro veio a ser Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. O padre, entretanto, que sabia ser São Sebastião o santo protetor dos animais e, por isso mesmo, mais propenso a ganhar donativos análogos no dia de sua festa, achou mais conveniente, para a Santa Madre Igreja, trocar o patrono do lugar. Que Nossa Senhora do Perpétuo Socorro continuasse a desfrutar da preferência dos mais antigos moradores, que reivindicavam a sua volta ao lugar de honra dos altares!
 Dona M. Guimarães, como era por todos conhecida, pois respeito se impunha, chegara naqueles lugares pelos idos de 1949, e, por anos e anos, pelo tempo de seus dias úteis, orientou, solícita, os filhos daqueles moradores quase analfabetos, nas primeiras letras e números. Apesar de ainda estar em vigor a prática da palmatória, tem-se pouca notícia, ali, de sua adoção como instrumento persuasivo.
A escolaridade das crianças previa três anos de duração. Em único recinto, reunia-se a totalidade dos alunos, cada um com o livro de leitura correspondente ao nível de aprendizado. Á medida que eles iam passando para o nível mais adiantado, repassavam o manual ao irmão ou ao parente mais novo. O grau de escolaridade final correspondia ao livro que chegasse a terminar. Cada volume, um ano escolar. Alguns alunos paravam no primeiro, outros no segundo e alguns terminavam o terceiro conclusivo. “Meu filho, estudou até o final do segundo livro de leitura”, já se orgulhavam os pais. Entretanto, poucos eram aqueles que davam seqüência aos estudos, em outro lugar mais adiantado.
 Todo esse mundo, lhe veio à cabeça naqueles poucos instantes de pausa para almoço, que nem chegou a acontecer. As pernas endurecidas tiveram que subir e descer escadas, com a pouco ajuda daquele que nem mesmo chegara a tê-la como mestra. O ônibus retomou a estrada e levou na fumaça um olhar de gratidão na pessoa de um de seus passageiros.
Resta a dívida. Apesar de lembrada com carinho por quantos tivera nos bancos daquela casa de escola, Dona M. Guimarães ainda não mereceu o reconhecimento devido, por parte das autoridades constituídas do município. Seu nome ainda sequer foi gravado em placa de rua ou frontispício de instituição de ensino. Os descendentes dos que dela receberam tantos favores, além dos primeiros passos por entre letras e números, poderão, assim, rememorar seus feitos e fortuna. Quousque tandem?