sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Isso e Aquilo dos Bichos (6)


O sapo

Era uma vez, numa festa de céu,
foi aquele rebuliço nos serviços,
um grande escarcéu, e, até, feitiços.
O sapo viera clandestino,
no violão do urubu Celestino,
quebrando, logo no início,
o inexorável tabu da criação. 

Mas o agourento guru esvoaçante
jurou vingança do viajante,
e dos altos dos brancos cúmulos,
tonitruante, ignorante do vexame,
não atilou com a devida atenção,
na hora agá da punição. 

Pela tamanha ousadia do terráqueo,
em querer ir a festas, de graça,
onde não era chamado,
o condutor cheio de regras e mágoa
ameaçou jogá-lo na água
que mais espirra e esgarça. 

Mais uma vez, o batráquio,
bem sabido, nas artes da malícia,
pediu que o jogasse na pedra,
que é mais dura, por merecida,
sabendo, de antemão, da solução,
porque a água seria a guarida,
a outra mais adequada opção. 

E foi como o fato se deu,
lá dos altos espaços do céu,  
para que continuasse o sapo
a trovejar de coaxos, mundo abaixo,
sem que chovesse em pedaços.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Isso e Aquilo dos Bichos (5)


A galiinha, Garrichinha, também tinha,
sem maldade, que contar a sua história,
e conta que canta forte, de doer os tímpanos,
que costuma pôr os ovos em qualquer recanto,
como bem lhe dita a premência da hora.  

Não se preocupa com perigos possíveis,
porque a filharada sempre some no mundo.
Veste vestido cor cáqui, tal o João, seu irmão,
e como as mulheres-soldado de Minas,
vai espantando os males da sina.  

De tão pequenina, de tão fecunda e prolífera,
a meninada em vadiagens, das Gerais,
chamam-na de “Galiinha de Nossa Senhora”,
rezam e não lhe fazem mal nenhum,
por ser tão frágil, sagrada e do acervo comum.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Isso e Aquilo dos Bichos (4)


Uma família de joões-de-barro,
atrevida e mansa de tão habitual,
vibrante de tijucos e chãos molhados,
prolonga de cantos os passeios
de vizinhos de hábitos calados,
em uma superquadra da Asa Sul,
dessa cidade temperada de azul.  

O azulado céu espelha o infinito,
nuvens passeiam pacíficos alvos,
e os ocres alam, uniformizados,
sabiás e bem-te-vis enciumados,
em disputas de anseios sagrados,
por espaços de alegrias incontidas,
de francos apreciadores do natural,
e dos ardores de amores
das repartidas cores do ritual.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Isso e aquilo dos bichos (3)


A gata fica na dela,
como se nada quisesse,
como se não conhecesse
o vazio da janela. 

Escuta os passarinhos,
sente o farfalhar das ramagens,
à procura de relembrar
a vida selvagem. 

Dissimula envolvimentos,
mas não deixa de olhar ferino
os movimentos do vento,
que animam seu instinto felino.

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Pensares a conta-gotas (212)


A síndrome do ninho vazio
lembra rio que já foi perene,
e, agora, some ou treme
no sorvedouro de secura,
ou no excesso de lamas,
se rachando ao sol,
engolindo solidões,
como plantas sem ramas. 

Solitário, vê as forças minguarem,
aumentarem-lhe os anos com anos,
sumirem-lhe os brilhos dos olhos,
quando luzes de lua e cores de dia
ainda reluziam nas águas vit(r)ais,
que não tinham tantas larguras,
tampouco, já, lonjuras mais! 

 

 
O rio faz curvas,
sem pressa
de chegar a mar. 

Recolhe águas de chuvas,
de lágrimas e mágoas,
que lava bem devagar.



 
As águas não têm medo
de quebrarem a cara, no ofício
de se despencarem das nuvens,
de se esfacelarem em gotas,
poeiras de névoas rotas,
e caírem no vazio dos precipícios,
em saltos e cachoeiras. 

Depois libam o descanso,
no remanso das planícies,
em sossegados cochilos
de ente indolente, tranquilo.
 
Lambem margens,
engrossam curvas,
e depositam alimento e sossego,
no mar ou no ar do desapego,
de onde voltam,
eternas negras viúvas,
a desenrolar os fios finos, na chuva. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Pensares a conta-gotas (211)


As fotos ficaram expostas ao tempo,
esquecidas sobre o armário,
dentro de um balde desnecessário. 

Amarelaram como a vida de dissabores,
que, aos poucos, evanesce, se esquece,
desaparece, perde as cores. 

Duas gerações mais, ir-se-ão as lembranças
das figuras sorridentes,
que lá buscaram abrigo, em vão. 

O planeta é bem mais antigo,
o(s) universo(s), bem mais vasto(s),
do que estes sorrisos amarelos, de ocasião.




 
Os escrúpulos o fenderam ao meio,
porque não conseguiu detê-los,
por força de uma força sem tino,
que nunca soube de onde veio ou vinha,
ou vem do além, das fraquezas,
ou das incertezas do destino!

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Pensares a conta-gotas (210)


Há muitas lembranças, com tranças,
e revivescências, nas errâncias;
nos vagares remotos,
por lugares notáveis, quase ignotos;
nas tramas indestrinçáveis,
nos dilemas de doses extremas;
nos prestimosos donaires,
nos ares e altares divinos;
nas tolerâncias nos fazeres
e tenências nos dizeres;
nos pensares embaraçosos,
nos objetos irretocáveis;
nos sons que chegam colados
nas letras consonantes e vogais;
nas telas e partituras de artes,
e artesãos de estrelas;
nas janelas entreabertas,
nas luzes filtradas de réstias e frestas;
nas vetustas casas embarreadas,
de telhas moldadas nas pernas;
nos roncos de trovões e ventos,
no oco do mundo sem fundo;
nas interrogações inquietantes,
nos estrondos e medos de escuros;
nas ocupações de solertes marimbondos
na faina dos dias redondos;
nos rombos, em tombos, em rolos de ciscos,
nos estragos dos passos por entre arbustos;
nas varandas pintadas de sol poente,
aleitadas, à noite, de luas silentes;
nos repousos dos pós-prândios,
nas sestas modorrentas e lentas ideias,
nos tempos de calma, despreocupados,
com suspiros de alma,
com perdidos e achados, já suprimidos.