quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Contos contados de Minas (34)

Cochilos na rodovia 

A rodovia veio bem mais tarde, asfaltada e de muito movimento, como não poderia deixar de ser, nesses tempos de velocidades e progressos. O betume só costuma chegar depois de muita insistência, ou quando a poeira começa a arder os olhos de algum político que por ali trafega, em busca de sufrágios para pretensões de vida longa, junto aos poderes centrais. É sempre assim, cozinha-se o galo até que peles e carne se soltem dos ossos. Depois, vem o sujeito, para comer o guisado, às pressas, quente ou frio, e jogar fora o resto. Não se pode é deixá-lo comer de barriga cheia, já que, embora provindo do povo, do dinheiro sempre sobra um tiquinho para algumas boas causas, como estradas e transportes, mesmo em lugares deserdados. A civilização avança e deixa, também, muita lambança. Convenhamos..., até quando?
Entrementes, lá vinha o Seu José no seu cavalinho esperto, melhor do que qualquer carro a gasolina do trânsito recente. Com o balanço do Roxinho, rebento da égua castanha, mansa e boa de sela, quase nascida na fazenda, a delícia do percurso era completa. Podia sentir o tempo passar, os minutos virarem horas e as horas comerem o dia, a saúde suprir o almoço, e a paisagem fazer-se saborosa sobremesa de um viver em paz. Aquele transcurso era rotineiro. Seu José, passado dos cinqüenta, vinha à cidade para matar saudade da mulher e dos filhos, já quase adultos, indagar se não faltava alguma coisa em casa, arrumar algum “negocinho” e montar no Roxinho para o retorno à fazendinha que possuía, ali, nas imediações de Mateus Leme, lá nas Minas Gerais.
Êta cavalinho de andar gostoso! Quando ganhava a estrada, então, podia-se soltar as rédeas que ele rompia ligeirinho, rebolando-se todo. Conhecia o caminho e o dono, e sabia bem o motivo de fazer o tempo encurtar mais na volta do que na ida. O Roxinho parecia encontrar mais fôlego, como é fácil de compreender. Tudo na vida se guia pelos interesses, também chamados de motivações. O capim, a água fresca e a sombra dos mangueirais não podiam ser mais do que recompensa. Também, o bom trato e o carinho que Seu José lhe dedicava.
Mas, o que se conta, aqui, não é o ânimo do cavalinho, e, sim, o sentido prazer do seu dono. Seu José, o tinha como meio preferencial de locomoção e deleite de cavalgá-lo.
Antes da arrumação do asfalto, a estrada tinha menos movimento. Depois, compreensivelmente, foi ficando mais trafegada, os tufos de poeira desapareceram com as pressões aos políticos para o calçamento. O tempo, também, foi passando na proporção que engrossavam as pernas do Roxo, esquecidas dos calcanhares de Seu José. Somente as vindas e idas, da fazenda à cidade e da cidade à fazenda, nos passos cadenciados do Roxo, não mudavam. A travessia da estrada, também, se dava sempre no mesmo lugar e nos dias rotineiros.
Entretanto, como tudo na vida, o tempo corre mais ou menos conforme os meios de transportes usados, se pernas, se cavalos, se carros, se caminhões ou aviões. Ali, no caso, eram as pernas do cavalo e do cavaleiro que entravam nos compassos da dança. Tudo no seu tempo de pouca pressa, que a vida devia esperar, para passar devagar.
Assim, cavalo e cavaleiro foram se acostumando com a rotina dos dias e do ritmo das andanças e travessias. Seu José ia ficando mais cansado e o Roxo mais vagaroso, sem, contudo, descuidar da vida de ambos, cada vez mais perigosa, por causa do movimento no asfalto. Caminhões era o que mais se via por aquelas bandas. Mais ralos, porém mais velozes, os carros de passeio. No lugar da poeira e do rumorejar do vento de antigamente, gazes e fuligem dos canos de descarga a cozinhavam-lhes os olhos e ensurdeciam-lhes os ouvidos. O cavaleiro parecia desconhecer tais perigos, e o sono já lhe pesava as pálpebras. Desde a saída da cidade, o balanço do tempo insistia em minguar-lhe os anos. Mas pregava as mãos nas rédeas do animal, quase que só para não se desequilibrar da sela, e deixava o cochilo vir tão certo como a chegada do Roxo à fazenda, o desarrear do animal, que, já de longe, sonhava com suco do meloso ou do remanescente jaraguá.
Um dia, Seu José chegou à casa, na cidade, contando vantagens do já, agora, cavalo. Atravessara a rodovia, sem que se desse conta do acontecido. A mulher danou e os filhos se zangaram, falando que chegara a hora de o pai parar com aquele costume de ir e vir à cidade, a cavalo. Mas ele resistia com a mesma convicção que o sono lhe apertava as pálpebras, nas travessias da rodovia. Ele relatava e gabava a astúcia do Roxo, cada dia mais passado para Roxão, com as vitaminas do meloso e do jaraguá trabalhando-lhe os músculos e as adiposidades do corpo, preguiçosamente.
Outro dia, contou o pai, quando acordou da sonolência, o Roxão, mal tirara a pata traseira do acostamento da estrada, um vento açodado de caminhão lhe fizera voar o chapéu para bem longe, na macega do mato próximo. Desta vez, mulher e filhos bateram com o martelo. Acabou-se a festa, Seu Zé. De agora em diante, se o pai quisesse ir e vir no conforto do balanço teria que ser acompanhado, e, assim mesmo, em transporte movido a petróleo. Esquecesse o cavalo, que a ele seria dado o prêmio merecido pelas boas travessias, sem qualquer acidente nas empreitadas. Melhor acabar com o amor ao animal, do que dele cair, ou ser atropelado, para tristeza de todos. O Roxão recebeu aposentadoria, remoeu capim gostoso, e Seu José poltrona macia, com travesseiro de boas lembranças.
           Parece que, com cavalo, é assim: quanto mais velho, mais sabido, apesar das forças das pernas minguadas. O que se perde de vigor, ganha-se em velhacaria, que tem etimologia correta, de experiência da vida. Disso é avalista outra animália sonolenta, pintada no pelo de “sementinhas escuras em rama rala e encardida”, propriedade de um renomado e fabulista João Fabuloso.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Contos contados de Minas (33)

            Cine-grátis


A criançada ficava alvoroçada, quando o carro de som passava pelas ruas da cidade, anunciando, para aquela tarde, na praça da cidade, a projeção de mais filmes, grátis. Nem ao menos conhecíamos o que significava aquele “grátis”, mas corríamos para a praça dos boiadeiros, soltos como a imaginação.
Assentávamos no chão, diante de uma tela fixada a um poste, e assistíamos a filmes do Mazzaropi, de Charles Chaplin, do Gordo e o Magro, dos Três Patetas ou, sabe-se lá, de quem ou sobre o quê mais. Quaisquer imagens projetadas na tela nos divertiam. Depois, voltávamos para casa, de alma leve e a cabeça ao vento, desconhecendo distâncias e cansaço. As idéias fervilhavam e iriam trabalhar nossas mentes para o resto da vida. Por algum tempo, permanecíamos, assim, no aguardo de novas passagens do carro de som, ou de algum menino que viesse propagar antecipadamente: “hoje tem cine-grátis”.
Importante, também, era a magia que o próprio nome “cine-grátis” exercia, que os filmes e seriados da matinê dos domingos, nas salas de cinema da cidade, nada tinham de tão atraente. E não era todo mundo que podia freqüentar aqueles recintos confortáveis. Muito menino teve no “cine-grátis” sua iniciação nas artes do cinema mudo e, até, de vez em quando, falado.
O operador devia ser um amante do cinema, de cujas preferências e intenções quase ninguém podia estar ciente, naqueles lugares distantes dos centros urbanos mais civilizados. se sabia que um carro velho com alto-falante, de quando em quando, passava pelas ruas anunciando “cine-grátis” para a meninada. Do responsável pela iniciativa, pouco se sabia ou se procurava saber.
Muitos anos, mais tarde, se soube, que ele, o ilustre e incógnito distribuidor de cultura gratuita, quando não tinha filmes para fazer o de que mais gostava, espalhar o prazer da arte cinematográfica, emendava pedaços de filmes, que acontecia ter que cortar, e os projetava para não privar de alegrias o seu público, sem deixá-lo na mão, mesmo desconhecendo suas artes e manhas no cumprimento despojado de um dever seu.
Para aquelas crianças, o enredo, a trama, não era o que mais interessava. O bom consistia em sair alvoroçados para a praça e aguardar impacientes a exibição dos filmes, mesmo que fossem simples imagens desconexas projetadas na tela. A ligação comCinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore, faz-se de imediato, que o célebre filme italiano surgiu tempos bem depois daqueles idos dos anos 50.
           A criatividade daquele artista, anônimo e distante, que, consciente ou  inconscientemente, tanto despertou o nosso imaginário e fantasias, que, provavelmente, antecipavam de alguns anos o prazer das artes das imagens em movimento, deve ser reverenciada. Talvez, agora, ao colocarmos um DVD em nossos, cada vez mais modernos aparelhos de projeção, e ao nos instalarmos, confortavelmente, em salas particulares de cinema, nem mais nos lembremos de um homem abnegado, de saudável e saudosa memória, que nos levava a sonhar, quando o sonho ainda privilegiava poucos felizardos da sorte e do dinheiro. O “Cine-grátis” da praça era uma sala ao ar livre do cinema Paradiso, lá da distante Sicília.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Contos contados de Minas (32)

Surra de caba e picadas de abelhas 

Minha mãe ouvira dizer que picadas de abelha curavam reumatismo. experimentara quase todos os remédios que as pessoas em geral lhe prescreviam, mas as dores nas juntas persistiam. provara de um pouco, o tudo: banha de cobra cascavel, sebo de carneiro, manteiga de capivara, carne de tamanduá bandeira, e não deixava de fomentar as articulações com o de perdiz embebido em álcool ou cachaça alcanforada. Esses e tantos mais remediozinhos caseiros, rezas e ungüentos, ela dizia terem sido os responsáveis por continuar existindo até aqueles mais de oitenta anos. Mas se algum alívio sentia, de pouco adiantava, embora continuasse a dizer que acreditava mais nos seus remédios, de folhas ou raízes, do que nos de farmácia, receitados por doutor que pouco entendia de dores, sobretudo em caso de necessidade primeira.
Um dia, enquanto secava ao sol o polvilho no jirau, observara as abelhas vibrantes, na procura do amido para seu fabrico de mel ou resina. Veio-lhe à idéia, então, o tal remédio, ensinado por alguém, de quem não mais se lembrava, como lenitivo de suas dores de reumatismo: as ferroadas de abelha ou de marimbondo. Foi aí que começou a irritar-lhes a paciência, para ver se  reagiam e lhe aplicavam as receitadas picadas. Mas as abelhas estavam distraídas no seu que-fazer e não correspondiam à provocação. O que ela não sabia é que elas não tinham nenhum motivo de ferroar alguém, gratuitamente, uma vez que se condenariam à morte por nada, coisa só faziam para o bem da comunidade, e ali não era o caso.
, minha mãe exagerou na dose dos desaforos e começou a espremer algumas delas que não tiveram outra escolha senão aplicar-lhe umas quatro ou cinco boas aguilhoadas na pela fina das extremidades superiores. Ela sentiu o quão caro saiu-lhe o remédio. Suas mãos ficaram em fogo e o inchaço demorou dias a desaparecer. O reumatismo nem tanto, ou, talvez, um pouco mais de tempo.
Essa lembrança faz-me contar, também, outra experiência com picadas de abelhas, mas desta vez com vespas, ou marimbondos, que em alguns lugares dessa vastidão de terras e línguas, são também conhecidos como abelhas, sem quaisquer simpatias.
Isso foi no Acre, nos idos de setenta e oito. Mostrávamos, orgulhosos, os arredores de Rio Branco a um professor que viera ministrar um curso de lingüística. Como o clima exigia, naqueles recantos amazônicos, vesti-me com bermuda e camiseta para o passeio de descontração. pelas tantas, passamos diante de uma propriedade rural que ostentava um belo exemplar de pé de manga. Quase ao alcance da mão, uma manga madurinha, e.... única, como que dizendo “apanha-me, por favor!”. Resolvi colhê-la, logo, para demonstrar ao visitante que a natureza, por ali, também, era pródiga.
Assim, pulei e dei um tapa na tentação, naquela ostentação de desafio, não sem razão. De fato, ela ocultava uma caixa de marimbondos, que ao se sentirem atacados, não tiveram outra reação senão a de agredirem o agressor, e descerem como numa nuvem negra sobre sua cabeça e onde mais encontrassem espaços desprotegidos de pano. Saí rolando ladeira abaixo, dando-me, desta vez, tapas por onde alcançavam as mãos, na esperança de espantar os tais venenosos insetos.
Felizmente os marimbondos não eram dos mais perigosos, e, eu, não alérgico. Também, pouparam-me o rosto, embora nuca, costas, tronco, pernas tenham ficado como em fogo. Umas duzentas picadas pareceram razoáveis ao funcionário da farmácia, onde comprei um caladril que me aliviou um pouco o efeito do veneno daqueles insetos. Um termo e uma expressão lingüística foram-me acrescentados ao vocabulário acreano, dos quais, dificilmente, vou me esquecer: “levar uma surra de caba”.
Voltando, ainda, ao assunto de picadas de abelha, uma dessas simpáticas criaturinhas apareceu-me, um dia, em visita na biblioteca, enquanto viajava por entre livros. Parecia perdida, atrás de um cheiro açucarado qualquer. Não trazia sinais de irritação, nem vontades agressivas. Propus-me, então, a desviar a atenção do que estava fazendo, e, sem outra inspiração para o momento, resolvi oferecer-me uma injeção de veneno de abelha. que não sabia como fazer e onde aplicar o tal remédio, tampouco, o lugar do corpo em que doesse menos. Como não me encontrasse, desta vez, de bermuda, levantei a perna da calça além do joelho, por julgar que a pele que cobre a rótula, seria o lugar mais infenso à dor. Além de tudo, a barra da calça, àquela altura, poderia enforcar a circulação, e diminuir a dor que, já sabia, viria, de algum modo, intensa.
Peguei a pobre abelhinha, que estava por ali ainda perdida no seu zumbir inofensivo, e obriguei-a a desferir o seu dardo, que a natureza tão bem soube confeccionar, para que, ao entrar na pele do agressor, não saísse, a não ser trazendo consigo parte do intestino do animalzinho. E, assim, foi. Passada a dor inicial, uma vermelhidão foi se formando ao redor da picada, Não inchou muito, porque o local não era de muita adiposidade, mas, nos dias seguintes, fiquei que não podia andar direito, tamanha a dor na articulação.
Se veneno de inseto, abelha ou caba, for mesmo bom para reumatismo, posso estar seguro de que este não me atingirá tão cedo. Valha-me Deus e Nossa Senhora da Ajuda, que passei a respeitar esses bichinhos tão temidos, até por animais de grande porte. Benfeitores na Natureza, como muitos outros.
           Anos depois, mais de oitocentos quilômetros do caminho de Santiago de Compostela parecem ter ilustrado os benefícios de tais remédios doloridos. Também, os biscoitos de minha mãe continuam sendo confeccionados com o polvilho que ela própria fabrica, horas e mais horas, em pé, secando-o ao sol. Só não me lembro mais de ouvir contar que abelhas continuam sendo sacrificadas pelos tais remédios poderosos. Quanto a mim, se me ocorre receber alguma abelha em casa, abro-lhe, gentilmente, a janela e desejo-lhe boa sorte entre as flores da Natureza.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Contos contados de Minas (31)

A Mulher de pau

A vida nos reserva fatos que mais nos fazem relembrar do que esquecer. Por isso mesmo difíceis de se calar ou de não se escrever. Um desses foi o ocorrido, há tempos, em um recanto mineiro, que, não fossem os preconceitos sociais de colorações diversas, nenhuma repercussão teria merecido. Mas vamos ao caso, que tardar seria menos falta de complacência que de clemência.
A notícia correu a cidade: um homem tinha sido preso, e o crime caracterizava atentado ao pudor e aos bons costumes. O acusado, morador na roça, sozinho, desgraçado da sorte, vivia isolado dos demais seus congêneres. Seus hábitos arredios pareciam excêntricos, e acabaram por chamar a atenção dos vizinhos. Algum moleque, à surdina, foi inspecionar o que o ermitão fazia em casa, naquela solidão de casebre de telha colonial e janela de tábua frestada, o mais das vezes fechada. E o olhar do curioso pôde divisar o que dentro se passava. O esquisitão confeccionara uma mulher de pau, de tamanho natural, tosca, que expunha na altura da genitália, um avantajado óstio. Por ali, satisfazia as necessidades, quando carecia de carinhos.
Mas, se isso, por si , poderia dar o que falar, o que chamou mais a atenção das pessoas, que passaram a comentar maliciosamente a descoberta, foi o artifício que o solitário inventara, para aproximar-se mais da realidade fisiológica e aumentar-lhe o prazer do ato. Ele esquentava na panela de ferro, na trempe da fornalha, um preparado de mamão ralado e o colocava no orifício apropriado, para dar àquele corpo de madeira, inerte e frio, o calor que lhe fazia lembrar o de corpo humano, que ele, talvez, nunca pudera, ou nem mais pudesse, ter a seu lado. Somente a fantasia poderia se encarregar de atribuir vida a objeto tão mal esculpido, e completar-lhe as formas, para o que se prestava.
Enquanto isso, insatisfeitos com a pouca divulgação de tão inusitado fato, nascido de um tão bem resguardado segredo, os moradores do lugarejo deram com a língua nos dentes em lugares mais adensados. Foi como espalhar ao vento as penas de um pato gordo. Corrida a notícia, a polícia foi instada a prender o ardiloso acusado. Seu crime merecia a execração pública, já que satisfazia suas naturais carências de prazer, com os tais engenhosos artifícios, no lugar de procurá-los, como todo mundo, nas bênçãos dos altares, cartórios ou lupanares.
Agora, o acontecido nada mais servia do que proporcionar prazeres às imaginações de pessoas de cabeças tão ocas quanto o buraco cavoucado no tal manequim de madeira. Naquela altura dos acontecimentos, nem as divindades seriam capazes de recolher as plumagens esvoaçantes da difamação. Talvez um Freud fosse capaz de explicar o quanto o ser humano carece de satisfazer as humanas necessidades, e ser o sexo, assim, tão indispensável, para regular o equilíbrio humano, tanto para os que o tem em profusão, quanto para os que dele carecem em perdição. Os sex-shops e a filmografia correlata, com tão grandes presenças e inovações nos dias correntes, poderiam ilustrar melhor esta busca de respostas para tais indagações.
Do fim que deram ao desequilibrado homem não se tem notícias. Presume-se que o coitado tenha sido solto, regressado ao seu abrigo, para gáudio das malícias e maledicências de quantos desconheceram as saudáveis regras da convivência dos contrários e dos carentes.
            Quem sabe, também, sua mulher de pau não tenha vindo servir de consolo para alguns daqueles piedosos detratores que o condenaram com tanta veemência e presteza. Ou, então, para aqueles que o assistiram detrás das grades, carentes de carinhos, que a liberdade do ir e vir pode conceder. Ou, até mesmo, tenha servido de inspiração a fabricantes de objetos infláveis, ou siliconizados, para um comércio cada vez mais delirante, à procura de sanar disfunções de mentes despossuídas de aconchego e consolo! A complexidade das almas comunga com sua intolerância inata

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Contos contados de Minas (30)

História de Amor Guardado

Até, então, sabia-se que ela tivera muitos pretendentes. Entre eles um tal que chegou a lhe formalizar pedido de casamento, como, aliás, outros também, indiretamente, o fizeram. Nada há de inusitado nisso, maneira mais natural de se formar uma vida a dois. Os pais não faziam gosto, sem parecerem autoritários. Não deixaram, contudo, de o ser em dose atenuada, em se tratando dos enlaces matrimoniais das duas únicas filhas, como o comumente aceito, na época e no lugar. As uniões deveriam ser duradouras, e uma oportunidade a mais de se buscar uma vida economicamente mais cômoda. Era preciso olhar, com atenção, de que lugar e de que família provinham genros e noras.
Os filhos viajavam pouco e raros saíam para estudos mais longe. Os que saíam tinham a possibilidade de conhecerem outras pessoas, de culturas diferentes, mas que quase nada mudavam o costume de um casamento aristocrático. Ao chegarem à idade adulta, rapazes e moças se acercavam de uma das quatro divisórias da propriedade paterna e escolhiam qual prima ou primo seria seu futuro cônjuge. Entretanto, na maioria das vezes, sem que soubessem, seus parceiros para toda a vida já vinham escolhidos desde crianças, naquela conversinha em família do fazer “gosto”, se com tal primo ou prima, se com a filha de fulano ou com o filho de sicrana. Menos contava o desassossego do corpo e da natureza, que na idade do viço não costuma escolher parceiros, demoradamente. Quando acordavam das fantasias, rapaz ou moça já estavam enlaçados pela sociedade, que, diga-se de passagem, era bem mais matriarcal do que patriarcal. (O feminino jamais perdeu seu poder, no tocante a família e a continuação das espécies. Os homens só servem, mesmo, para garantir as aparências de que, no terreiro, é o galo que canta mais alto que a galinha. Seu canto é bem rápido).
Aquela sociedade aristocrática rural tinha, também, seus arraigados preconceitos. Pobres, negros e bastardos não possuíam quase nenhuma oportunidade de ascensão social. E, para isso, a Santa Madre Igreja contribuía enormemente com seu manto azulado e a fala mansa de seus representantes.
Ora, então! Assim, ela provinha de uma família aristocrática, embora de poucas posses e escassas terras. Por parte do pai não houve qualquer herança, diluída, por descuido, nos leilões da “praça”, como se dizia. A mãe recebera um quinhãozinho de campo limpo, terra fraca, perto da casa dos pais, já que estes também perderam, em negócios mal feitos, seus cerrados, sem cercas e currais, nos chapadões dos gerais, como se denominavam as vastas porções de terras de frágeis documentos. Os valores morais, entretanto, se mantinham, dos antepassados portugueses, ex-senhores escravocratas, com o controle das uniões dos filhos, rígido e velado. A boa reputação era imprescindível, antes de qualquer outra virtude, para que o nome da família não se manchasse pelos disse-que-disses das conversas e dos subentendidos de cochichos, nos dias de festas santificadas, nos arraiais. Ali, as famílias recebiam o apoio dos padres em suas admoestações do púlpito, sem desagradarem os sustentáculos da religião oficial.
Assim era que, nesse vai-e-vem de valores, a casa dos pais vivia cheia, principalmente aos domingos, dia em que se visitava vizinhos, tios, tias e avós, para menos se inquirir da saúde das pessoas, do que obter a aprovação dos namoros, nos olhares trocados à socapa, e demais artimanhas que pudessem redundar em futuros relacionamentos de vida. “até que a morte os separasse”.
O pai era de boa prosa, sabedor das artes do bem receber, do fazer sala às visitas, embora muito cioso em manter ilibada a reputação das duas filhas, sobretudo da mais velha, que ainda não decidira com quem se casar. Aquele seu jeito civilizado e cerimonioso, não tão comum no meio rural, ele o trouxera de sua origem citadina e da leitura. Às filhas e netos dava a mão a beijar antes do abraço de acolhida. Gostava que lhe fossem servidos o almoço e o jantar à mesa, sobre toalha branca, e em travessas que se iam trazendo da cozinha ao amplo salão de ensolaradas janelas.
A mãe em nada lhe ficava devendo daquela boa conversa, e gostava, sobremaneira, de descobrir laços de parentesco e consangüinidades nos visitantes. Nela, a origem aristocrática rural e seus antepassados tinham pés e almas fincados no esterco dos currais e no pó dos terrenos plantados para a economia familiar. Era mais rude nos carinhos e olhava com cara feia e desaprovava carícias. Ela sabia, também, que a tal proximidade dos sangues não deixava de trazer seus perigos e dissabores, e não desconhecia a existência de deficiências mentais e, até, más formações físicas em membros da grande família.
Todavia, tais casamentos com parentes tinham, lá, seu lado prático. Era só uma questão de mudanças de cercas nas extensas propriedades e a construção de casas secundárias nas cercanias da casa grande, e levar os primos para brincarem juntos. Além das terras, os jovens poderiam ajuntar, também, suas sementes por debaixo dos lençóis e cobertas de algodão e lã que as mães tão bem mandavam fiar e tecer para o enxoval das filhas. Aos filhos, cabia aprender a multiplicar as propriedades e os braços, até mesmo adulterinos, para a continuação da espécie e do poder do dinheiro. Com a prole numerosa os pais garantiam uma vida tranqüila e menos dolorosa no final da vida, com quase sempre uma das filhas solteira para deles cuidar. A última, em geral, que, na eventualidade de contrariar o costume, em se casando, devia permanecer na casa principal que herdaria depois deles mortos.
No capítulo de que se trata, a família minguou a duas filhas, com a morte de outras três que a difteria levara, ainda na primeira infância. Escaparam, por sorte, as duas primeiras, e a primogênita foi ficando para tia dos filhos da caçula, que não tardou a encher de netos o balaio, ou os catres da casa dos avós. 
O trabalho de casa, com os pais cada vez mais decadentes, necessitados de cuidados específicos, foi fazendo com que os anos passassem céleres e se escasseassem as visitas de possíveis pretendentes. Além do mais, era comum pensar que aquela que adentrasse a casa dos trinta, já incorria na perigosa possibilidade de se tornar definitivamente uma “titia”, com vocação igrejeira e distribuidora de bênçãos a sobrinhos e parentes mais jovens. E foi o que o tempo lhe reservou, com a morte dos pais e a dispersão dos sobrinhos da única irmã prolífera. Ela foi sobrevivendo, a olhar pela janela o passado e seus guardados, que, na sua já avançada idade, julgava proibidos aos olhares da família resumida e da casa reduzida.
Quando a morte também lhe veio ceifar as energias escassas, uma dessas lembranças foi uma carta bem guardada em um bolso qualquer de roupa antiga, trazendo uma declaração de amor. Bem caligrafada, testemunhava uma proposta velada de casamento. Do autor somente se sabia, até então, “que quis muito se casar com ela”. Desconhecia-se, porém, a existência e o teor da missiva, datada de lugar designado. O missivista era bem conhecido, de boa aparência, moço trabalhador, mas carregado de estigmas, pois trazia o “mulato” no codinome e era filho bastardo de parente próximo, sem reconhecimento civil, e, além de tudo, pobre, como não poderia deixar de ser. A assinatura não era a de M. J. Mulato, como era conhecido, mas a de M. J. do Sila, por derivação imprópria de Silva, e o texto, que se duvida tenha todo ele saído do punho e cálamo do pretendente, traduzia, em papel timbrado com buquê de rosas vermelhas, o calor do amor que já, de antemão, se sabia proibido.
Com a mínima indiscrição, que costuma não fazer qualquer concessão a compreensíveis desvios ortográficos e sintáticos, assim rezava o conteúdo da carta que fora tão cuidadosamente guardado, até que a morte viesse separá-lo da destinatária:
“A., 20-4-43
Graciosa Beatriz,
Mil saudades. Cumprimento-lhe respeitosamente, desejando a você toda a felicidade, inclusive aos teus pais. Eu vou indo felizmente bem, graças ao nosso Redentor. Beatriz, já há tempos que eu tenho palpite de falar um pouquinho com você sobre aventuras de amor, mas, como a oportunidade para nós é muito difícil, eu resolvi escrever-lhe estas linhas, a fim de dar provas do quanto eu sinto o meu espírito impressionado por tua causa.
Embora eu reconheça a minha situação, sei que não te mereço, mas assim o destino quis. E tanto que, se algum dia você se interessar por mim, será a minha maior riqueza do mundo, alívio para o meu coração.
Beatriz, quando eu me lembro da distância que nos separa, eu me sinto entristecido, não só pela distância, mas também por pensar que sou menos merecedor.
Sem mais o que dizer, peço perdoar meus erros, e, também, queira aceitar, juntos aos teus, as minhas recomendações e um saudoso adeus de teu amoroso admirador.
Eme Jota do Sila

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Pensares a conta-gotas (58)

Já briguei com tudo,
Já briguei com elas,
Já briguei com eles,
briguei comigo,
Já briguei com todos,
Já briguei com o mundo.

Com Deus e os céus,
Ainda não briguei,
Bem que tentei.

Porém, agora, desconheço,
Se disso Deus conta faz,
Pois sou eu que, incapaz,
Fui, d´Ele, me afastando,
Nem ao menos anotando,
Quando a briga comecei.

Em lugar de bem amar, briguei,
E, comigo, continuo brigando!
É briga e mais briga,
Que não mais acaba,
E nem sei até quando
Continuarei a brigar
Me obrigando a nada.





Posso, sim, ser azedo,
posso, até, ter muito medo,
pois que, bem informado
de um traçado legado,
tenho, nas notas de rodapé,
o texto perdido e achado,
o arremedo de um enredo
mal revisado.




A fragilidade humana me espanta e vexa,
Perante a invencível tarefa do universo,
Em experiências sempre complexas!

Como pode o homúnculo sobreviver
A tão grandes penadas dúvidas,
E distâncias sem clemências!.

Pouca a matalotagem de coragem
A transportar, com paciência,
Por caminhos perversos.

Ser e vir a ser parecem, apenas,
Duas duras instâncias:
A nos vencer, ou a se vencer
                  Sem muita tardança.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Pensares a conta-gotas (57)

A vida é cheia de curvas e retas,
Que, vira e mexe, volta e vira,
Sempre levam ao termo do caminho,
Sem que se atrase a chegada ao ninho.

Retas são mais uniformes nas vias,
Mais fácil lembrar as notas das guias,
Ver ao longe, no cosmo torneado,
Os novos horizontes transmudados.

O esférico são o rasgo das quinas,
Gastas arestas em quantos desvios,
Em corridas de inúmeras esquinas.

Curvas ou retas alargam visões,  
Nas longas rotas de mais desafios,
Nos árduos trechos, iguais decisões.




Nem há mais pura verdade,
Mas de mentira vestida,
Assim de forma ligeira,
Que na rotina da vida,  
Revela-se por inteira,
De mordaça passageira.