quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Nuvens Esparsas (73)

Vive-se, hoje, mais de mentiras.
A realidade parece sombras.
Na caverna, luz de fogueira recriada,
artificial, fictícia, mentirosa.

Lá fora, sol seria imagem verdadeira,
de maiores fontes luminosas,
de estrelas eternas, descomunais,
flutuantes no vazio, maternais.

As ideias continuam ideais,
imagens fora d´a gente,
do tamanho desses jatos de luzes,
também, assim, chamadas celestiais.

sábado, 7 de outubro de 2017

Nuvens Esparsas (72)

Sobre o que se anda pensando,
do quotidiano, 
há rasgos bons e melhores,
outros, nem tanto,
carentes de substâncias
e acidentes.

A vida dá provas, 
recompensas,
havidas em tantos recantos
de mundos acessíveis,
percorridos em realidade,
ou fantasias.

As estradas, 
entradas e saídas das moradas,
são, de antemão, 
programadas
em conformidade às condições
de vontades ou revelias.

sábado, 23 de setembro de 2017

Nuvens Esparsas (71)

Nossos parcos conhecimentos
ninguém nos arrebata,
nem os trocamos por dinheiro.

Até quando seremos lembrados
por pecados passados,
de há muito perdoados?

Nossa visão de mundo, ânsias,
nossas perambulâncias,
nossos roteiros mal traçados!

O que os olhos enxergam
seriam apenas vultos introjetados
de caverna platônica interiorizada?

Tiramos conclusões de situações,
e o que o coração ama variado
não conserva, derrama, exaltado..

Observamos, atentos, territórios alheios,  
que andam cheios de bons resultados,
cimentados em sólidas verdades.

Mas só o que braços e mãos estreitam
faz-nos aferir o nosso atual currículo,
que, se rico, pode bem permanecer rasteiro.

domingo, 10 de setembro de 2017

Nuvens esparsas (70)

(“Les amis des mes amis sont mes amis”)

O inimigo de meus inimigos
é meu amigo,
pelo que me obrigo
ao infinito.

Em tudo existem dois lados,
o rumo certo,
e o prumo errado,
o lado oculto, e o revelado.

Se me julgam na direção errada,
e se achem na rota certa,
já penso
se confessarem errados.

Nesta vida de incertezas (e quantas!),
impossível saber do destino correto,
o alheio cabe
a cada um como veio.

De uma coisa, julgo-me estar certo:
acham-me no caminho mais concertado
os que não se professam
do lado errado...

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Nuvens esparsa (69)

Vida forra de passarinho.

Sem pensar em dias,
nem horas,
sem quase o que fazer
de dever ou demora,
a não ser viver,
e fazer viver,
e cantar e cantar,
a não mais poder,
pelo quanto puder
aguentar de lazer,
de soprazer,
o pássaro, parece
passar o tempo em prece,
sem fazer de conta,
porque a vida é leve
passatempo no ar,
de brisa breve,
estrada larga,
sem paragens,
sem resistências 
ou retráteis margens.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Nuvens esparsas (68)

O dinheiro é sem alma, sem coração,
deixa pobre sem opção,
que, se correr, o bicho pega,
se parar, de precisão, de fome,
o bicho é homem.

Há desconto pra tudo,
na luta das injustiças,
do vale-tudo desenfreado, 
menos pra dinheiro desregrado,
igualado na cobiça.

Questão é de desrespeito
ou de vergonha, nenhuma ou pouca,
contrafeito no valor, em inteiros ou avos,
da penúria, da pecúnia,
dos bens alienados?

Quanto vale o picolé de coco
do menino pernalta, esfomeado,
artefato apenas perfumado,
empurrando carrinho de coitado?
Um real? Paga-se oitenta centavos.

Quanto, o carro contrabandeado?
Cem mil? Leva-se por oitenta.
Qual o valor do apartamento,
mobiliado em madeira de lei, condenada?
Quinhentos mil? Compra-se por quatrocentos.

O iate decorado, a salários desconcertados?
Vale facilitado um milhão?
Tem-no por oitocentos mil,
de dinheiro em banco, facilitado,
catados a rodo, ou de aluvião.

A quantas andam a dívida da nação?
Um bilhão? Salda-se com rolagens,
e infinitos juros escorchados,
seguros e mais outros apuros
da desbastada população.

Deve-se pouco? Vai-se amargar a prisão.
Paga-se com perda da identidade,
da rala idade bebida com pouca comida,
com cama exígua, iniquamente dormida,
e tempo moldado de preocupação.

Deve-se milhões? Aguarda-se em liberdade,
assentado em fofas poltronas e vantagens:
responde-se, de cara deslavada,
a inquéritos de adestrados magistrados,
administrados na certeza das impunidades.

Os devedores se resguardam infiéis,
no silêncio estratégico das leis,
à sombra de bem remunerados bacharéis,
sem devolução de luxos desfrutados,
injustificados perante os céus.

II

Qual, então, o preço da consciência, do pecado,
dos ofícios perdidos, dos cultos manipulados,
dos desejos satisfeitos, do uso da contravenção,
do cônjuge infiel, das injustiças sociais, da omissão,
da conivência nas mortes indiretas de inocentes,
do desperdício de alimentos excedentes,
da complacência de dirigentes indecentes,
das vestimentas suntuosas, do ouro resguardado,
da ostentação de guardas engalanados,
das pedrarias valiosas nas confrarias de iguarias,
luzidias de tão caras, de tão finas, de cores frias?

Do pequeno, tira-se o muito,
do grande, quando se tira, tira-se o pouco.
Quanto mais alto o preço,
maior o valor do desconto.
Quanto maior a dívida (no posto),
maior a indulgência (no imposto).
Quanto maior o crime (resumido),
mais insignificante o castigo (infligido).
Quanto menor o valor do trabalho insano,
mais o mundo se mostra desumano.
Quanto maior o pecado, 
maior a clemência do prelado.

                        III

O mundo é bem irremediável e louco!
E Deus, como é que fica, em tudo isso?
Afastado, indeciso, omisso,
só avaliando intrincados compromissos
de irresponsáveis juízes?
Ou, talvez, sejamos tão somente aprendizes?

sábado, 5 de agosto de 2017

Ainda a consciência

(Relembrando tempos idos)

Deus me vê, me aclara,
não me censura, cuida,
nem lhe cabe condenar.
O olho de Deus
não conhece mau-olhado,
nunca foi triangular,
severo, oblíquo, raivoso,
dissimulado. 

Bondoso, sempre, foi,
com muita vontade
de ajudar, o pobre coitado.
Não me olhou, desde o sacrário,
no banheiro, ou sanitário,
para evitar
o vício solitário. 

Nem enxergou, malsim,
no escuro do confessionário,
pensamentos culpados,
resistentes,
noturnos, reincidentes,
como a consciência de Caim,
no sombroso refúgio carcerário. 

Penoso é julgar um condenado
dentro de vedada muralha,
assentado numa cadeira fria,
rígido, encolhido, inseguro
na sombra profunda,
como foragido verdugo,
em “ La Conscience”,
poema escuro de Victor Hugo.