sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Pensares a conta-gotas (261)


Aconselha-se, sobremaneira:
não andar com os olhos no bolso,
não se fazer de bom moço,
não gastar o sal do almoço,
deixar de lado os ócios,
não roer o duro osso,
do que se puder comer
com merecido gosto de viver. 

 

Em Roma pedia-se “aqua”!
Agora, ao mundo, pede-se “water”!
Logo, da Asia, pedir-se-á Feng Shui? 

Chegará a hora de se pedir “água”,
insípida, inodora e incolor,
ou morrer-se-á de sede, frio ou calor. 

No final da caminhada, porém,
haverá outros povos, menos novos,
(se, ainda, reinar o bom senso),
da Papua, Nova Guiné, Amazônia,
simplesmente, a estender as mãos,  
molhadas de rios, brios e coração.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Pensares a conta-gotas (260)


Não se pode conceber, nesta vida,
o que está reservado,
após a derradeira partida. 

Há quem afirme nada acreditar
em transcendência do ausente,
outros, já, ciliciam-se por ignorar
a imanência do evidente. 

Mas, o que advirá, ou não,
da conclusão, é o frio imenso,
a cobrir corpos, dados ao chão. 


Os santos da verdade,
os incompreendidos atores,
do palco das dores,
só serão benditos,
se entronizados, com louvores,
nos altares do outro lado. 

Deles, nem a história costuma se lembrar,
muito menos, os absolverá, desta lida,
de miúdos e supostos pecados,
com os rigores indevidos,
por ser, a balança humana,
pouco ou nunca aferida.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Pensares a conta-gotas (259)


Quando não se sabe o que fazer,
e nenhum outro mister satisfaz,
comprova-se, então, estar devedor
do que não se conhecia capaz,
que não fosse apreendido de cor. 


Viagens

O tempo ora demora, ora passa depressa,
como raio e trovão na tempestade.
Quanto mais apressado, mais depressa passa,
e se anda devagar, mais se faz esperar. 

Passar pelo mundo, um passear de instantes,
aqui, acolá, experimentar-se sortimentos,
de nula munição, guerras e contendas,
e comprovadas e já listadas encomendas. 

Pessoas, viajam juntas, fazem o mesmo trajeto,
cada uma a seu jeito e ritmo, ditados em próprio projeto,
em cumprimento de buscados desfechos,
no confronto de íntimos conflitos previstos.  

As viagens, sempre ligeiras, são nuvens passageiras,
e limitam pesares nos desvãos das estradas,
nem permitem indagar das próximas paragens,
para suprimentos de mais peregrinagens.

Enquanto isso, o tempo,
que nem é tempo,
passa depressa e devagar,
sem qualquer interstício entre ir e voltar.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Pensares a conta-gotas (258)


As encruzilhadas 

Não sei, se cheguei, ou não,
onde já deveria ter chegado,
ou se chegarei a lugares aguardados.
Por acaso, desviei-me no caminho,
em algumas dessas encruzilhadas
do inesperado? 

Tempo, não há mais, que pena!,
nesta atual jornada de aprendizado,
para retornar-me aos pontos
dos enganos,
que já não me restam mais
sobras de anos. 


Quando se olha para trás,
por se sentir perdido,
desanimado, frustrado,
em caminhos já escolhidos,
o arrependimento fere fatal,
nem permite conversão,
ou total mutação de ser, 
em sodômica estátua de sal?

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Pensares a conta-gotas (257)


Haicais fingidos 13
 
Imagens fugidias,
a cabeça não acompanha
pe/r/nas de cada dia.
 
 

O pão nosso de cada dia
é dado aos que o comem
a suor amassado.


Sem esforço,
nem osso enterrado
há de ser encontrado. 

 

Leão solitário,
sem direito de mando,
vive errando. 

 

De ponta-cabeça,
o salto-mortal é certeiro,
ou derradeiro. 


Na pressa, come-se cru,
chega-se logo ao pouso,
os pés lacrimejam. 

 

Das janelas dos instantes,
voam plumas lisas,
na leveza das brisas. 

 

Meio-dia, o sol reverbera,
no telhado da casa,
luzes trêmulas. 


Voz no descampado,
fere a paz, o silêncio
foge no vento. 

 

Tapera, casa abandonada,
terreiro esquecido,
cobras se refestelam ao sol.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Pensares a conta-gotas (256)


Haicais fingidos 12 

No andar a pé,
ideias não se cansam
de vagar. 

 

Pernas fatigadas,
devaneios, sem freios,
desandam a passeios. 

 

Adrenalina exsuda medo,
vai à cabeça, perde a razão,
e se esvai no etéreo. 

 

Tintas projetadas,
o quadro se cria,
à revelia dos pincéis. 

 

Desconfie da memória,
que não guarda mais
os anais da história. 

 

O sexo se arrefece,
soçobra o ânimo,
uma luz se apaga. 

 

Depois das festas,
de novo a casa.
Solidária, a solidão! 

 

Vidas sem calendários,
os dias sem contas,
são aniversários.  


Célere, cai a tarde,
o fulgor se esvai.
À noite, o silêncio! 

 

Pianista não carrega piano.
Das teclas vai retirando
a ligeireza dos anos.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Pensares a conta-gotas (255)


Haicais fingidos 11 

Ano novo vem,
ano velho vai,
lembrança vai e vem. 

 

Sempre atento,
o vento se infiltra,
nas frestas do tempo. 

   

O homem sobe no ringue,
enfrenta outro animal,
seu rival. 

 

O que faz o dinheiro!
Quebra os ossos,
deixa inteiros os bolsos.
 
 

A solidão é fria
sensação de falta
de empatia. 

 

Tome cuidado!
Aí, vem você,
feroz, forte e armado. 

 

Banal como a morte.
A mosca esvoaça,
desavisada da sorte.
 
 

Rápido, como mosquito
esfregar o olho,
de ante a mão armada.  

 

A criança não mente,
experimenta fantasias
que sempre inventa. 

 

O cavalo sonolento
espanta as moscas
com rabo e vento.