quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Pensares a conta-gotas (214)


O cerrado

A árvore cresce mirrada, de casca grossa,
por sobre terras e pedras duras,
e ramos e capins secos do cerrado,
de muita força e raízes tentáculos,
a abrirem gretas e frestas e mais vasos,  
para a água se infiltrar de pouco prazo.

As fontes nascem, os rios correm,
a chuva molha secos e já molhados,
os bichos se locomovem,
sem qualquer exposta ferida,
somente as gentes não se comovem,
e vão queimando mais vidas.  

O sol não esquenta o bastante
as consciências dos que morrerão,
ou vão nascendo nos apetites da ignorância,
e desconhecem o poder do fogo,
da água, dos ventos, dos elementos,
possuídos das demências e ganâncias. 




 
Mudam-se os rostos,
as fisionomias, os gostos.
Menos mudam pés-de-galinha,
rugas na linha do rosto,
da cara minha.
 



 







   

 
     

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Pensares a conta-gotas (213)


Para tudo se acha explicação,
nada é sem ofício,
neste perdido torrão, de serviços,
neste corpo franzino,  
nessa empreitada
de caminhadas de missão. 

Até o coração tem dois destinos,
nas largadas das jornadas:
o de conduzir o sangue da vida,
em desatino de corrida,
e o de contradizer a razão,
tomado de emoção incontida.
 


 
O fôlego é curto, o oxigênio raro,
para alongar textos mais densos.
O curso da via é breve, conciso.
Já nascemos longe do mar,
e o deságue é com as águas poucas,  
que fomos ajuntando, para a mar.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Isso e Aquilo dos Bichos (6)


O sapo

Era uma vez, numa festa de céu,
foi aquele rebuliço nos serviços,
um grande escarcéu, e, até, feitiços.
O sapo viera clandestino,
no violão do urubu Celestino,
quebrando, logo no início,
o inexorável tabu da criação. 

Mas o agourento guru esvoaçante
jurou vingança do viajante,
e dos altos dos brancos cúmulos,
tonitruante, ignorante do vexame,
não atilou com a devida atenção,
na hora agá da punição. 

Pela tamanha ousadia do terráqueo,
em querer ir a festas, de graça,
onde não era chamado,
o condutor cheio de regras e mágoa
ameaçou jogá-lo na água
que mais espirra e esgarça. 

Mais uma vez, o batráquio,
bem sabido, nas artes da malícia,
pediu que o jogasse na pedra,
que é mais dura, por merecida,
sabendo, de antemão, da solução,
porque a água seria a guarida,
a outra mais adequada opção. 

E foi como o fato se deu,
lá dos altos espaços do céu,  
para que continuasse o sapo
a trovejar de coaxos, mundo abaixo,
sem que chovesse em pedaços.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Isso e Aquilo dos Bichos (5)


A galiinha, Garrichinha, também tinha,
sem maldade, que contar a sua história,
e conta que canta forte, de doer os tímpanos,
que costuma pôr os ovos em qualquer recanto,
como bem lhe dita a premência da hora.  

Não se preocupa com perigos possíveis,
porque a filharada sempre some no mundo.
Veste vestido cor cáqui, tal o João, seu irmão,
e como as mulheres-soldado de Minas,
vai espantando os males da sina.  

De tão pequenina, de tão fecunda e prolífera,
a meninada em vadiagens, das Gerais,
chamam-na de “Galiinha de Nossa Senhora”,
rezam e não lhe fazem mal nenhum,
por ser tão frágil, sagrada e do acervo comum.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Isso e Aquilo dos Bichos (4)


Uma família de joões-de-barro,
atrevida e mansa de tão habitual,
vibrante de tijucos e chãos molhados,
prolonga de cantos os passeios
de vizinhos de hábitos calados,
em uma superquadra da Asa Sul,
dessa cidade temperada de azul.  

O azulado céu espelha o infinito,
nuvens passeiam pacíficos alvos,
e os ocres alam, uniformizados,
sabiás e bem-te-vis enciumados,
em disputas de anseios sagrados,
por espaços de alegrias incontidas,
de francos apreciadores do natural,
e dos ardores de amores
das repartidas cores do ritual.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Isso e aquilo dos bichos (3)


A gata fica na dela,
como se nada quisesse,
como se não conhecesse
o vazio da janela. 

Escuta os passarinhos,
sente o farfalhar das ramagens,
à procura de relembrar
a vida selvagem. 

Dissimula envolvimentos,
mas não deixa de olhar ferino
os movimentos do vento,
que animam seu instinto felino.

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Pensares a conta-gotas (212)


A síndrome do ninho vazio
lembra rio que já foi perene,
e, agora, some ou treme
no sorvedouro de secura,
ou no excesso de lamas,
se rachando ao sol,
engolindo solidões,
como plantas sem ramas. 

Solitário, vê as forças minguarem,
aumentarem-lhe os anos com anos,
sumirem-lhe os brilhos dos olhos,
quando luzes de lua e cores de dia
ainda reluziam nas águas vit(r)ais,
que não tinham tantas larguras,
tampouco, já, lonjuras mais! 

 

 
O rio faz curvas,
sem pressa
de chegar a mar. 

Recolhe águas de chuvas,
de lágrimas e mágoas,
que lava bem devagar.



 
As águas não têm medo
de quebrarem a cara, no ofício
de se despencarem das nuvens,
de se esfacelarem em gotas,
poeiras de névoas rotas,
e caírem no vazio dos precipícios,
em saltos e cachoeiras. 

Depois libam o descanso,
no remanso das planícies,
em sossegados cochilos
de ente indolente, tranquilo.
 
Lambem margens,
engrossam curvas,
e depositam alimento e sossego,
no mar ou no ar do desapego,
de onde voltam,
eternas negras viúvas,
a desenrolar os fios finos, na chuva.