sábado, 11 de fevereiro de 2012

Pensares a conta-gotas (68)

Temos muito medo
de viver.
A vida só nos ameaça
de morte.
Independente de sul,
de leste,
de oeste, ou de norte,
a solidão nos apavora,
e a utopia nos deixa,
sem hora




Como é que hei
de me lembrar,
se já esqueço
a cabeça no ar?
O corpo é tão incapaz
de voltar a cobrar,
por lei,
o que já deixo de saber,
o que faço,
o que fiz,
ou desfazer hei?




Acredito
No porvir
E mais razões
Encontro
De existir.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Contos contados de Minas (37)

           “Sai da janela, assombração!” 

Conta-se o milagre, não se revela o santo. Conta-se o conto, aumenta-se o ponto, corta-se o tanto, inventa-se o quanto. Da verdade faz-se a mentira, com mais graça e arte, na ficção dos tênues repartes.
O Zequinha de Seu Clarimundo era rapaz delicado, de voz de contralto e débeis feições. Corpo aprumado, magro e rosto afinado. Um tanto fraco nas forças, é bem verdade, talvez por ser a rapa do tacho, bem usado. A moça era do lugar, avantajada no corpo e nos hábitos, um tanto diferentes das demais congêneres. De belas e robustas formas, porém. Algum tempo antes de se casar com o Zequinha, ela estivera, de certa feita, em visita à casa da Dona Maria, em companhia da mãe, vizinha de grande respeito e postura. Ao falarem da iminência do casamento, ouviu da sincera anfitriã: “Você está tão nova para pensar em casamento, menina. Espere mais um pouco!” “Não, está conversado, o casório tem dia marcado, não há mais como esperar!”
Por esta ocasião, ela já tirava do bolso o canivetão, a palha de milho que umedecia na ponta da língua e alisava bem alisada na lâmina do corneta, antes de segurá-la por entre os dedos anular e médio da mão. Na palma colocava as lascas picadas do pedaço de fumo de rolo. Depois de enrolado o avantajado pito, acendia-o no tição da fornalha e, sem nenhuma cerimônia, dava as primeiras baforadas para gozar-lhes o prazer, como se estivesse adentrando os páramos celestiais.
Aquilo era atitude de moça, que falava em casamento?”, pensou a Dona Maria. “Fosse, como fosse, mulher velha e viúva, ainda vá lá, se relevava, mas aquela menina”! Enquanto isso o Zequinha devia estar na casa do pai, ajudando-o e aos irmãos mais velhos, com o quanto as parcas forças permitiam, na lida do curral e nos afazeres do terreiro, que consistiam, sobretudo, em colocar dentro de casa os mantimentos, para o sustento da família.
O casamento não devia tardar muito a acontecer, como era do costume. Casamento pedido, marcava-o, logo, sem muito esperar. E foi o que se deu. Casaram-se e foram morar, de início, na casa dos pais do noivo, enquanto se ajeitasse as terras e a casinha onde criar família, como sempre aconselhava o padre, na hora do sim solene na igreja.
Domingo é dia de visitas na roça. Na casa do sogro pouca gente aparecia e a monotonia convidava a visitas na casa dos vizinhos. Antes do almoço, de preferência, para não compartilhá-lo com as tantas bocas da família. Naquele dia santo, de pouca atividade na casa de Seu Marcelo, estavam somente o marido, a mulher, Dona Maria, e o filho caçula. Dia do senhor deveria ser bem guardado. Dona Maria tivera uma boa idéia: matar um “franguinho” para o almoço, por que não! O terreiro estava cheio deles e o paiol de milho, também. Apesar do pouco entusiasmo do marido e do filho, ela foi ao paiol e passou a mão no primeiro volátil que sobrevoou-lhe a cabeça.
estava com o frango na gamela, no ponto de ser depenado, sapecado e aberto, quando apareceram os recém casados. Vamos entrar! Entraram. A Ana, como do costume, foi para a cozinha conversar com a dona da casa e o Zequinha ficou na sala proseando com o dono. Sorte é que o anfritrião, de bem mais idade que o visitante, era pessoa de boa prosa, que não escolhia assunto para alimentar uma conversa. Enquanto o Zequinha emitia sons contraltos na sala, na cozinha, a Ana alisava na língua a palha de pito, com o cornetão e o fumo de corda de prontidão. Pito enrolado,  na auréola da palha bem umedecida, e aceso no tição da fornalha, a Ana nem cuidou em se oferecer para cuidar do frango no lugar da dona da casa, como devia de ser. As baforadas eram por demais prazerosas e ofuscavam-lhe as idéias e a civilidade.
Chamou-se da cozinha para o almoço. “Venham pra dentro, o almoço está pronto!” Mas o Zequinha foi desde recusando: “Nós almoçamos na casa do pai, antes de sair pra , estamos sem precisão!” “Mas venham se servir assim mesmo, matei um franguinho. Venham puxar das panelas!” Era preciso insistir, como se insistiu: “Vocês não devem ter almoçado o suficiente, e já faz tempo, aproveitem!” E se foram os dois em direção da fornalha, onde os tições, ainda quentes, acalentavam a comida nas panelas. O primeiropegou a coxa e o encontro, e a outra, o encontro e a coxa. Para os da casa ficaram os pedaços menos nobres do frango, que era assim que as coisas se davam com eles . Sem seca.
Na casa do sogro, a vida seguia seu curso, e a Ana, ao se casar, encontrou casa cheia e dividida em dois ternos de gente. De um lado os cunhados, com o sogro no comando rígido do patriarcado. De outro, as cunhadas e a sogra, grupo bem mais numeroso e recatado. As moças ficavam confinadas nas repartições internas e anteriores da casa, principalmente, cozinha e circunvizinhanças. Os homens, nos serviços braçais externos, currais, roças e carro de bois. As “meninas”, como eram chamadas as “filhas mulheres”, cuidavam da comida e da roupa dos “irmãos homens”.
Nos primeiros dias, a Ana ficou do lado das mulheres. Depois, aos poucos, foi se esgueirando, até se aproximar da janela que dava para o curral, onde o sogro e os filhos cuidavam das vacas e sua prole. Ali ela, parece, se sentiu mais à vontade. Das primeiras olhadelas até as primeiras baforadas no cigarro de palha de milho foi um pulo. E ficou por uns momentos, postada na contemplação dos serviços masculinos, inclusive no do franzino Zequinha.
Mas o sogro, pai de quatorze filhos, cinco homens e nove mulheres, era homem perspicaz que não andava de olhos nos bolsos e nós na língua. Ao ver a nora recente no sem-que-fazer, se deleitando com a fumaça do cigarro e os olhares compridos ao deus-dará, tomou aqueles gestos como desrespeito à sua autoridade de patriarca e bramiu: “Sai da janela, assombração. Vai pra dentro ajudar as meninas, ou procurar ocupação!
           Não por aquilo, mas, logo, dali se mudaram e viveram, aparentemente, felizes por alguns pares de anos. Ele na lida do terreiro, roçar dos pastos, trato das vacas. Ela, nos afazeres domésticos, baforando o pito de palha, e os olhares compridos perpassando janelas e os longes das estradas. Tiveram filha, que cresceu, estudou e se mudou. A solidão foi pesando no corpo de ambos, menos no dela do que no dele, como não se podia deixar de enxergar. Teria sido esta uma desculpa adequada para a desforra que a Ana encontrou, ao trocar o marido por alguém de mais firmeza na voz, nos atos e no resto?

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Contos contados de Minas (36)

Caso de assombração

Este se deu na virada da Bocaina, bem ali, quando se deixa a estrada do Pântano para o descambar nas vertentes do Santo Antônio, em direção à Mata da Guariroba, ao Brejo Comprido e à Fulminante, lugar este de mais presença neste rebuscar de tempos.
Pois é, foi ali,quase  defronte ao capãozinho da Dona Sinh´Aninha, que ele, apesar de não acreditar em assombrações, presenciou um fato que, nos dizeres do Seu Jacinto Bina, crioulo de grande porte e respeito, compadre dos mais velhos e venerandos senhores daqueles meios, aquilo não era outra coisa que almas do outro mundo, assombração no duro, sem tirar nem pôr, não havia do que duvidar.
Assim foi, assim se deu. Vinha ele, em noite de muita chuva, nenhuma estrela ou réstia de lua, nuvens escuras, um breu, como é de costume descrever em assemelhadas circunstâncias. Aí, o cavalo refugou, começou a ficar desatinado, andar de lado, sem querer avançar caminho, como que sentindo ou pressentindo algum perigo. Cavalo é animal sensitivo que, dizem, enxerga como poucos no escuro.
Ele vinha de mãos ocupadas, uma segurando curto as rédeas dos arreios, e a outra empunhando a lanterna, que o tio lhe emprestara, para o caso de alguma precisão. Nunca se saberia, naquela inusitada aventura! Mas as pilhas já não respondiam tão bem. Mesmo assim, foram suficientes para lhe trazer ao foco, fraquejado, as três mulheres de branco, de cabeças agachadas, a olharem para o chão do caminho, como se não o estivessem enxergando bem. Se aquilo fosse, mesmo, assombração, as figuras ali presentes já deviam estar sentindo os apuros dos arrepios, uma vez que aqueles ermos carregavam ainda fama de mal assombrados.
Diante daquela cena um tanto quanto fantasmagórica, para aqueles instantes de noite e lugares, ele, encontrou ainda espaço nas idéias para imaginar caraminholas, como possibilidades de tirar proveito da situação confortável em que se encontrava, e fazer-se, ele próprio, de assombração, para assustar aquelas pobres criaturas. Um raspar de garganta bastaria para alvoroçar o quadro ambiente. Elas, como mais tarde se soube, pensaram e propagaram pela vizinhança a notícia de que tinham avistado almas do além, vagando em forma de luz pisca-piscante, pelos altos da Bocaina.
Não teve, porém, coragem para tanto, nem era de se dar a maldades, por leviano. Além disso, seria covardia, na sua posição de incrédulo e bem montado. Tirou-as do foco, apagou a luz, e a noite se fez ainda mais espessa. Tentou continuar o caminho que ele conhecia melhor do que o cavalo, conforme este fora comprado, recentemente, e não tivera tempo suficiente para decorar vãos e desvãos de caminhos, para ajuda de andar no escuro.
Apesar do inopinado da situação e do desconforto do momento, ele estava gostando daquela insólita aventura. Mas não demorou muito, o pai apontou na virada da linha, parando a camionete bem a sua frente. Logo, ficou sabendo que a mãe, incomodada com ele e a pouca prática no cavalgar à noite, sob ameaças de chuvas grossas, colocara a casa em polvorosa, fazendo ir ao seu encalço.  Para descarrego dos cuidados, comandara ao Nosso, ajudante temporário na fazenda, a ir aguardar o andarilho nas profundezas do Santo Antônio, por onde poderia, também, inventar de passar. Com as chuvas de há pouco, o córrego deveria, ainda, estar jogando águas nos barrancos. Para um desavisado aventureiro, que por ali quisesse atravessar, cavaleiro e cavalo rodariam, na certa. Mas não foi o caso. O empregado, depois de algum tempo observando a pedra que pusera no limite de onde as águas lambiam as margens, concluíra que o lençol abaixava. No caso de alguém, ainda se atrever a transpor o córrego, naquele escuridéu de fundos de matas, não haveria perigo de ser rodado nas correntezas.
Entrementes, dispensou a ajuda do pai e do conforto do motor, e optou por enfrentar a noite e seus temores, além do balanço gostoso do baio. Chegou à casa para a tranqüilidade da mãe e de todos, com a chuva a molhar o rabo do animal, como se diz em imagem apropriada, muito a gosto.do gaucho Romualdo.  
De volta à calma, narrou-lhes o acontecido, na virada da Bocaina. Já no domingo, o Zé Nosso encarregou-se de espalhar a notícia pela redondeza, começando pela casa da namorada, a Rosinha da Dona Sinh`Aninha, moradora justo atrás do famoso capãozinho de medrosas lembranças. E o caso, por fim, encontrou explicação. As três moças de branco, que naquela noite de pouca luz e muitas incertezas, sob aguardo de chuva iminente, tinham espalhado, antes dele, as medonhas notícias. Avistaram uma luzerna que, àquela hora da noite, de céu de negrume, podia ser coisas de outros mundos. Passavam pela Bocaina, de volta para casa, depois de saírem de um mutirão de fiandeiras, nas proximidades. Eram as filhas do Seu Tião das Quantas, morador daquelas beiradas de morros.
O fato se explicou, mas não retirou, como se demorará a tirar, a fama do lugar, na imaginação daquelas gerações de gente simples. Que Seu Jacinto Bina não lhe venha mais desacreditar o relato. Caso isso aconteça, não merecerá maior importância, porque em assombração o avisado transeunte continua não acreditando. Mas vale dizer que, pouco tempo depois desse acontecido, o cavaleiro  veio a assistir o último suspiro do negro xucro, quando a alma deixou a casca já por demais ressequida. Agora, ela mora em outras paragens de menos assombros, ou, melhor, já de todo desassombradas, por força das circunstâncias que aos viventes pouco se reservam.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Pensares a conta-gotas (67)

(Musa desnuda)

O que resta,
depois da festa,
no corpo nu,
na testa que sua,
da musa difusa?

A beleza bem vestida
desnuda-se, de vez,
da roupa fina,
das meias cruas
e das botinas,
dos pós e prós,
dos reveses da altivez.

Restam-lhe, do manto,
os contras, a tristeza,
num espelho tonto,
na parede fria,
na água da pia,
da sincera natureza.




(Musa vestida)

Ah! como muda
de veste, de vista
a essência da mulher,
ante a festa,
há muito prevista!

Há, nela, um tanto de tudo,
dixes e fiados ao colo,
pós, espelhos e pedras,
qual gusa, adrede preparada,
a fazer, dela, a musa
de muitos cobiçada.

Olhares, os mais gulosos,
nem enxergar conseguem
as artimanhas tamanhas da moda,
que lhe forçam diversiva imagem,
moldurada de novos ais e ares,
modelo investida de donaires tais.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Pensares a conta-gotas (66)

(Elas 3)

Seu currículo independe
de pouco ou muito saber,
ou instrução.
Esta a razão
de tanta insinuação.

Mas ela sabe, e como sabe!
ser natural que ele a devore
de desejos e de olhares
os mais concupicentes.
Um quase punhal sem igual,
nem mais nem menos
fatal, contundente.

Ele a quer assim como é,
nem mais magra,
nem mais gorda,
nem mais sábia,
nem mais tola,
bem mais mulher.

E que traga, em si, atração maior:
um corpo torneado,
de recendentes cuidados,
que apresente como troca.
Um sensual suor, e olor de boca,
até mesmo desprovidos de senso,
ou de amor intenso.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Pensares a conta-gotas (65)

(Elas 2)

A moça, toda solta,
se solta, envolta
em fresco e solto,
volátil vestido,
corpo e alma absortos
num incontido,
revolto sentido.

Proposital, exibe
um monumento visual,
bem sensual,
que remexe sem pejo,
o carnal desejo,
como num beijo,
que o tempo é sempre igual,
por natural.

Sabe ela, é claro,
que olhares vorazes
hão de comê-la,
como, é certo, comê-la-ão,
por inteira,
sem contra-mão,
sem qualquer barreira,
como parceira,
à revelia de pudica restrição.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pensares a conta-gotas (64)

(Fatalidade) 

muito, o branco domina
O cinza dos meus cabelos.
muito, o escuro se esconde
No branco da minha barba.
muito, a sombra não pode
Com o branco do meu bigode.

tempos, o lusco-fusco não acorda,
No recôndito dos meus “et cetera”.
Ainda, agora, um pálido fulgor apaga
O vermelho do meu rosto.

Pobre de mim!
Que pouco ou nada enrubesço,
Diante destas furtivas horas,
Como coisa que, nem um tanto mais,
Me reconheço!




Às vezes, escuto um blues
Que me eleva e reduz
A mais cinzas
Ou a mais centelhas
De luz.




A gente pensa
e medita.  
Às vezes, grita
Com desagrado.

E conclui, do enfado:
Mais se pensa,
Menos se avança,
Mais se agita,
Menos se apressa,
Presos na prensa,
Que nesse recanto
Sempre nos habita.