quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Migalhas de Mim (73)

 

Re-lance

 

O chiado triste e casto do carro, de bois

de chifres de pontas em riste,

por passagens de poeiras, sulcadas,

sem margens, sem tratos, desbravadas,

apinhado de espigas, às milhares,

de ouro de milhos sadios, maduros,

em final de tarde cálida e calma,

da seca e da sede acre-picantes,  

tal imagem presente na soledade da alma

dessas minhas visagens notívagas,

banhadas a silêncio estridente de grilos ,

desses meus sertões gerais de milagres,

de encantos de coração já domado,

a remexer em fios finos, debilitados,

de acurado refino de lembranças,

de carreiros andantes, curados na herança

dos tais bugres bravios, de tez sem corante,

na guia dos animais de eras, esforçados,

no resfolego incessante, mansos ruminantes,

ao som de eixo e azeitados cocões,

torneados chumaços do pesado bálsamo,

com fragrâncias e cheiros do mato dentro,

me refaz, em ávida criança de momentos.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Migalhas de Mim (72)

 

É terno o amor

 

Nunca soube como será,

mas sabe que há de voltar

de viajadas paragens,

de páramos etéreos, siderais,

de factuais translados

já muito d’antes firmados.

 

Também ela, bem sabe,

das voltas, por oportuno,

de outros vagares diuturnos,

desconhecidos e distantes

desses globos oculares,

desses aguçados ouvidos.

 

Entre afagos e abraços,  

demasiados sentimentais,

de corpos e poros abertos,

a suores recobertos, embebidos,

corações nem um pouco frios,

nem tampouco irreais e vazios.

 

Palavras amenas, de certo, terão

correlatas distrações de serão,

confessados receios de repartidas

para locais descabidos, desertos,

por motivos diversos já imaginados

e irracionais apreensões!

 

Laços pelo tanto combinados

deverão ainda indiciar roteiros,

de tais desatinados amantes,

companheiros do amor verdadeiro,

que deveras será correspondido,

por se manter pelos tempos urdidos!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Migalhas de Mim (71)

 

 

Lá où la science trébuche encore, la poésie s´exprime dans ce langage candide et plein de fraîcheur, celui d´une enfant sage et rieuse, émerveillée par la beauté du monde." (Prov. 8, 22-35). Tradução literal: (Lá, onde a ciência empaca (ainda não explica), a poesia se exprime numa linguagem cândida e cheia de frescor, própria de   de uma jovem sábia (bem-comportada) e risonha (Maria?), maravilhada pela beleza do mundo.) Texto extraído de Jean-Marie PELT - Pierre RABHI: Le Monde a-t-il un sens?, Fayard, 2014, p.26 


Redenção


Judas e Maria,

por vontade divina,

puseram Jesus numa fria?

Em Caná: “Mãe, Mãe,

ainda não é chegada

minha hora. Adia!!!”

 

Mas já era tarde,

“eles não tinham mais vinho”.

A vergonha grande seria, 

maior que as alegrias dos presentes,

jovens convivas da festa 

de nubentes.

 

Na Ceia: “o que tiveres que fazer,

faze-o, logo!” 

ao aviso o apóstolo induz.

A dor da espera, no Getsêmani,

grande seria,

maior que a dos cravos na cruz.

 

(“Pai, afaste de mim este cálice”,

“Eloim, Eloim, lamma sabactani”,

Meu Pai, por que me abandonaste?

Um de vocês vai me entregar.)

Não havia como fugir ao combinado,

os planos de Deus já eram traçados.

 

Os demais atores do martírio

tiraram o corpo fora, no delírio?

(“Acaso serei eu, Senhor?”

“Não conheço esse homem!”

“Sou inocente do sangue dele.”

Não temos outro rei senão Cesar”.)

 

Maria, todavia, sentira que era a hora,

de antecipar a missão salvadora do filho.

E Judas não fugiria de corroborar

os planos de amor do amigo redentor.

Pois é! 

Esse foi e é o mistério da Fé!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Migalhas de Mim (70)

 1

Homenagem póstuma:

 

Marcone era de Barros

e como jarro de dores,

quebrou-se, por inteiro,

mais cedo, no Terreiro.

 

 

Por que não nos cabe saber

futuro de qualquer criatura,

deste mundo sem cobertura,

sem poder conceber começo,

fim, margens, fundo ou altura

ou boas razões de viver,

por mais escuro, alto seja o muro,

mais árduo ou duro seja o enduro?

domingo, 13 de dezembro de 2020

Migalhas de Mim (69)

 

Deus me deu de graça

poderes de pensar, julgar

e dele até discordar,

e de seus emissários anões,

em muitas ocasiões.

 

A ignorância-handicap,

a muitos lesa profundo,

mas, certos ou errados,

aceito-os como vieram,

por não terem tido o trato,

no momento correto, exato,

em que foram gerados.

 

Isso inteiro se compensa,

sem artifícios, balísticos atos:

com mais experiências,

competências alcançadas

em outras vindas e voltas,

sem desprazeres e revoltas.

 

No mundo, por ser redondo,

tudo roda e volta ao berço bio,

de onde o eterno caminhante,

vivente dos incertos momentos,

incansável errante dos ventos,

solitariamente, parte ou partiu.

 

Nada de absoluto se cria,

nesse mundo autossuficiente,

“nada se perde, tudo se transforma”,

conforme a lei do comprovado,

na fôrma se forma fórmula ativa,

para sempre de novas tentativas

em ir-se concertando o já consertado.


quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Migalhas de Mim (68)

Receituário  


Faço-vos conhecer a flor do para-tudo,

mais espinhenta e dura não pode haver.

Caso mais delas haja, por esse mundo de Deus,

que mo façam saber.


Conheçam, antes de tudo, a planta-mãe,

muito discreta, natural do cerrado,

arejado, biodiverso, tamanho,

seja aberto ou seja fechado. 


A raiz, que tão bem faz,

é tubérculo entre pedras nascido

ou em bem piores condições 

de chão duro, empedernido.


O caule é veludo, de tão frágil e macio, 

e pode-se arrancar de só pensar,

sem desavisada brusquidão 

com a própria mão.


As folhas, essas, então, 

são de se acariciar lábios e dedos, 

ou a palma da mão,

tão grande a delicadeza, na exibição. 


Mas, a grande beleza é a das flores, 

de só espinhos, para se preservar, 

quem sabe, de falta de carinho, 

ao ser tocada ou fotografada.


A cor de tais enfeites, fáceis localizados,

é de difícil definição, exige mente insipiente,

que mistura vermelho com amarelo, 

para ostentar tom de alaranjado atraente.


Se colhida e deixada de lado, a sol quente,

esmaece, lentamente, 

realçando a dureza seca 

das pétalas-espinhos contundentes.


O bulbo, ou batata, de maior valor,

é, por óbvio,  de difícil extração. 

Para se soltar da terra ou pedregulho,

só com picareta ou enxadão, à mão.


Cura de um tudo, sem chancela, 

como revela o próprio nome e renome ,

dor de peito, lesão de pulmão, 

fígado inchado, coração, tosse e paixão. 


Seus ativos princípios atravessam 

os dutos todos do corpo carente, 

até o final da função absorvente

quando voltam para o chão.


Um tetravô charlatão 

(no bom sentido etimológico do termo) 

e os descendentes polivalentes, 

o conservava como rosário de fé e oração:


Fatiado e seco, enfeixado em rodelas,

atado em cordão, como escapulário,

ou relicário de sacrário, para a comunhão, 

ao leite misturado, quando necessário.


Para permanência de sementes e flores, 

cumpre-se preservar um canto de cerrado,

(cada dia mais diminuto, destampado), 

além de fotografias, mesmo que frias, 

no ordinário.


sábado, 5 de dezembro de 2020

Migalhas de Mim (67)

 

Dou-lhes, por ora,

um pouco mais

de recado

do sempre mesmo

de sempre.

 

Menos malhar a ferro frio,

num chove não molha

de chover no molhado,

como em tijuco de bica

de antigos regos d´água.

 

Menos cruzar os braços,

por falta de abraços,

menos olhar os dentes

de cavalo dado

de presente.

 

Menos ficar  sem destino,

no desatino de tempo comum,

desmedindo os passos do tempo,

sem dar tempo ao tempo,

sem fazer de certo o errado

como pau mandado.