quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Pensares a conta-gotas (228)


Busca-se amor intenso,
seja de que jeito for,
físico, platônico,
lacônico, tagarela,
de almas e corpos enleados,
presentes nos desejos e beijos
dele e dela, sem janelas.  

Amor que não trema,
mas que se extreme,
ou estremeça,
que não crie ramas
ou dramas,
que recomponha as tramas
do gesto do desprendimento,
que agregue valor maior
no desvencilhar da dor,
tais os amores materno,
paterno, fraterno,
ternos, eternos
e o que mais for de valor.
O amor se veste, inconteste
de diferentes cores.
 

∞

 
O que falta, nos dias de hoje,
na mesa e no coração,
são o arroz, o feijão e o pão,
o amor, a paz e o perdão,
o silêncio, o sono e o emprego,
o desapego ao torrão e o sossego,
os abraços, o desvelo e os laços,  
a abnegação, inerentes à doação,
antes, durante e após a comunhão.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Pensares a conta-gotas (227)


Enquanto uns, os outros...
enquanto o calor, o frio,  
enquanto o belo, o feio,
enquanto as asas, o freio,
enquanto o dia, a noite,
enquanto o apetite, o boia-fria,
enquanto a alegria, a tristeza,
enquanto o brilho, a desarmonia,
enquanto as notas, o do-mínio,
o re-tardo, o mi-lagre, o fa-tídico,
o sol-erte, o lá-tego,
o si-lêncio de poucos brios... 

Enquanto os nós das bravatas,
penduram paletós de gravatas,
aliviam a uns e enforcam a outros,
na mata, os cipós entrelaçam dores,
mais apertam do que relaxam,
à vista de cós de calças e despudores,
de sapatos de dedos pedicurados,
de pernas em azadas perambulâncias,  
por corredores climatizados, 
vocês e eu teremos menos valores,
por ignorâncias levados...

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Pensares a conta-gotas (226)


(Roteiro para quem vai a São Tomé e Príncipe)

Sem perder tempo,
fazer roteiro verdadeiro,
usar pena e sentimento sincero,
anotar falares, dizeres,
recolher ideias maiores,
que regam terras,
e vida e valores. 

Pensar com amor e coragem,
falar de alma aberta e coração,
apagar dores escondidas
de miséria à flor da pele,
de segregação reclusa, obtusa,
de interesses escusos.  

Dirigir-se com jeito, e proveito,
às pessoas carentes, decentes,  
que se orgulham da raça;
olhar nos olhos, nas linhas do rosto,
sem nada cobrar de gestos,
que não sejam de graça. 

Comprovar que respeito mais vale
que ouro e prata de suores gastos,
guardados em cofre de ricaços,
longe de lenitivos das dores,
ausentes dos infinitos desejos
de cultivar amor e vida melhor.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Pensares a conta-gotas (225)


Gastam tempo e papel,
gastam dentes e salivas,
gastam mármore e cinzel,
gastam telas, tinta e pincel,
gastam ciência, bolso e suor,
gastam mente, massa cinzenta,
gastam mais do bom, do melhor. 

Muito gestam, bem pouco criam,
gozam, gastam, gostam à revelia,
quando chegam a fazerem algo,
já vem carregado de avarias.
Mas como nada dissemos,
já nada podemos dizer,
não é, poeta Eduardo
Alves da Costa?


∞
 

Todo erro tem conserto,
todo aperto tem descanso,
toda corrente tem remanso,
todo palpite tem efeito,
todo começo tem limite,
todo defeito tem solução,
só os desejos de perfeição
carecem de jeito e precisão.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Pensares a conta-gotas (224)


(Pedras que tantos pés pisaram, mãos alisaram...)

Não sei se este texto está terminado. Ao leitor de o refazer a cada leitura.

Que falem as pedras
desse mundo empedernido,
falem dessas gentes,
desses gerais profundos,
trazidos de dentro da alma,
à tona das mentes producentes. 

As pedras dos muros de pedras,
das pedreiras em profusão pelos caminhos,
dividem as terras e os homens que as tocam,
desde os sopés dos montes e colinas,
das montanhas aos mais altos cimos,
dos ânimos   

Das muralhas da China às pirâmides do Egito,
dos palácios e esculturas da Grécia
à Roma dos arcos e circos, que a plebe agita,
das milimétricas formações incas e maias,
dos seixos soltos das encostas e sendas peregrinas,
sempre elas, as pedras, a darem firmeza e guarita.  

Das escadarias das igrejas e casarões barrocos,
das tapiocangas dos cerrados e solidões,
às ruas de cidades de Minas e Sertões,
as pedras alicerçam as paisagens ferrenhas,
enegrecidas nas mãos dos escravos-mina.  

As pedras são as mais puras testemunhas
da história da Terra, dos quantos humanos
migram, em milhões de anos,
tomando-as nas mãos, varrendo-as com os olhos,
a procurarem os melhores ângulos da segurança,
para, depois, se encolherem em seus cantos,
e esculpirem a memória de feitos e encantos.

domingo, 1 de setembro de 2013

Pensares a conta-gotas (223)


Esses pássaros mágicos que ora sobrevoam, em liberdade,
a Carélia, de ilhados monumentos, à beira lagos,
e pousam sobre cercas assinaladas pelos tempos,
nesses lugares ermos, recônditos, frientos,
teriam, ainda, como nós, debilitados seres humanos,
a consciência dos avós de mil milhares de anos? 

O que somos, o que fomos, o que seremos,
para os muitos de nós, que virão, em comitivas,
confrades, providos de memória e ânimos,
se a tanto permitirem as mentes lucrativas? 

Por quanto tempo, ainda, conseguiremos ser,
tais pássaros pousados sobre estacas, independentes,
à procura do que dizer, como sempre dissemos,
de como sobreviver, por que tempos e finitudes
continuaremos a voar, sem perdermos o rumo,
nessas e noutras, embora longínquas, latitudes?

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Pensares a conta-gotas (222)


O texto é feito de alinhavos,
sem acabamentos definitivos,
embora estático, se resguardado,
queda-se à espera
de ilimitados reparos. 

Os discursos nascem e renascem,
a cada lida e uso,
de entendimentos profusos. 

A poesia é sempre idiossincrásica,
inerente à tessitura dos fiados no fuso,
dependente só de quem a sente,
como o êxtase de quem ouve música. 

∞

O fazer literário  

Como pretexto, o autor
escolhe a roupa necessária,
para vestir o texto. 

O leitor julga a vestimenta,
e troca a indumentária,
do prazer que experimenta.  

O tradutor fica indeciso, sem saber
que mais roupagem escolher,
que vestuário será o preferido
do futuro leitor, imaginário,
diante de tão sortido vestiário.