terça-feira, 9 de julho de 2013

Pensares a conta-gotas (207)


Já não temo os castigos eternos,
perco o medo dos infernos,
dos anjos maus, dos demônios,
das almas penadas e assombrações,
dos tridentes de assar pecados,
das culpas e escrúpulos danados. 

Cultivo a poesia,
feita com harmonia,
a bondade de Deus,
carinhoso e bondoso como pai,
que diz “vai, que eu seguro as pontas,
e você não cai!” 

Somos todos caminhantes, tripulantes
em travessias, de estradas infindas,
com rumo infinito de idas e vindas,
com belas paisagens nas cercanias,
consolos de gente carente,
de menos energias.  

O amor está ai, presente,
para se cultivar e sorver,
como ar puro e benfazejo,
como o belo, para se ler e ver,
que o feio é a falta do prazer,
dado para se viver, contente.

sábado, 6 de julho de 2013

Pensares a conta-gotas (206)


Aonde me levou
a lucidez?
Ao desagrado,
ao desamparo,
à embriaguez?
 


 
Poetas escrevem
e dizem, depois, por aí,
que não querem ser compreendidos,
de preferência,
apenas lidos. 

Aos leitores de traduzi-los,
como bem lhes aprouver,
e, aos apetites diversos,
como bem lhes convier
a messe. 

Os melhores, guarda-se na gaveta,
(como sustento, ou sacramento.)
Os menos bons, divulga-se na gazeta,
(para o deguste de momentos.)
Os piores, ou natimortos,
(se esquece, pós-sepultamento.)

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Pensares a conta-gotas (205)


"Avec um si on met Paris dans une bouteille."

Sempre os "ses"...

Se tivesse, ou não, mudado a viagem,
o ônibus, o trem, o navio ou o avião;

Se o carro tivesse, ou não, me pegado,
no contrapé ou na contramão;

Se tivesse, ou não, errado o estribo,
ao montar no cavalo, ou subir no caminhão;

Se tivesse, ou não, dormido ao volante,
naquele instante de curva apertada, na estrada;

Se tivesse, ou não, me distraído ao ligar o rádio,
ao sair de supetão, sem maior necessidade;

Se tivesse, ou não, mantido aquela ideia maluca
de ouvir cantar o galo, e espantar o curiango;

Se tivesse, ou não, olhado onde andava,
para não colocar o pé na arapuca;

Se tivesse, ou não, pesado o que falei,
ou falado menos o que não pensei;

Se tivesse, ou não, fechado a porta,
ou taramelado a janela, com mais atenção.

Se tivesse, ou não, verificado o retrovisor,
antes de dar ré, ou desligado o motor;

Se tivesse, ou não, assistido ao dia, no rezar das ave-marias,
ou à aurora, a pintar de vermelho as barras do dia;

Se tudo não tivesse acontecido como aconteceu,
ou eu não tivesse feito parte desta história;
 
Se tivesse, ou não, considerado estes “ses” sibilinos,
com a mesma força na proposição,
se me permitissem a volta ao antes do depois,
quando ainda haveria remédios para a solução... 

Se não tivesse perdido a hora,
estaria, agora, a olhar para o tempo,
a cocar têmporas e cachola,
engolindo o seco, amassando barro,
a pensar caraminholas?

terça-feira, 2 de julho de 2013

Pensares a conta-gotas (204)


O lugar onde se estiver,
será o melhor para se viver.
Se acaso dele se esquecer,
não há como mais escolher
nenhum outro qualquer lugar,
porque melhor não se achará,
para se nascer ou morrer. 

 

 
Não se deixa pedaços de vida,
para se degustar mais tarde.
Depois do sabor de hoje,
outro melhor não haverá,
nem no depois do depois,
a que não se é dado provar.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Pensares a conta-gotas (203)


(716 Sul – Praça Centro Clínico)


Retrocesso no excesso da incoerência
do progresso, expresso
na carência das essências,
nas presenças dos controversos,
nas convergências do universo? 

Cabisbaixa e alheia, ela se fixa no celular,
como outros no Ipod, Iped, Iphone, Tablet, ou coisa igual,
e se esquece do mundo e do burburinho da praça,
não enxerga viv´alma, envolta na fumaça,
que se esgarça e se perde de seu ar impessoal. 

Até quando essa lida perdida,
para desgraça geral do conhecimento,
no esquecimento banal dos rápidos momentos,
sem que convívio algum, ou sentimentos,
sejam a pedra angular, em que se embasa a vida?


      
 

Nas encruzilhadas das estradas,
dessa vida de pressões, atribulada,
de pressas e compressas, cerradas,
em que não se pode parar de pensar,
nem nada fazer para se furtar
às partidas e largadas combalidas,
muito acerto se deixa de anotar,
muito deserto se deixa de passar,
ou, quem sabe, passa-se sem saber,
porque não há como deixar de passar.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Pensares a conta-gotas (202)


Relegam-se papéis, aos montes,
a serem triturados e derretidos,
como cartas de dores recônditas,
a não se fazerem ressentidas. 

Pensares, a gente desprega no ar,
a serem divulgados e esquecidos,
como bandeiras desprovidas de signos,
depressa a se retalhar em tiras. 

Só a mente não costuma se soltar,
facilmente, aos trancos e borrascas,
aos ventos do esquecimento,
em lascas, em lágrimas, em lâminas,
por se evitar possíveis descosimentos.
 
∞ 
 
 
O homem não se fez,
para viver debalde,
tampouco nos arrabaldes,
como ave desgarrada,
de asas quebradas,
ou como leão apaixonado,
afastado do bando,
para amar, sem ser amado.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Pensares a conta-gotas (201)


Nada que o tempo não desgaste
ou arrebente,
nosso corpo, nossa mente, nossos dentes,
nossa pele, nossa face, nossas lentes,
nosso ventre, nossos dedos,
nossos dedinho e dedão,
nosso nexo, nosso sexo, nosso amplexo,
nosso coração. 

A carrapeta gasta, a torneira vaza,
a água suja, a roupa não lava, o ar escava,
a terra cansa, o vento espanta, o fogo destrói,
a fumaça arde, fede, polui, corrói,
as pernas não mais sabem a dança
e cansam.                            

O parafuso espana, a rosca da porca arrasa, a viga cede,
a casa cai, o telhado se assombra, a coragem se esvai,
e sempre será preciso comprar uma peça a mais
para a engrenagem não parar.
Só o espírito não envelhece,
permanece, embora migre,
que viver aqui não é mole,
mas a gente concebe e engole.