quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Pensares a conta-gotas (166)


No dicionário,

É pau, é pau
de não mais se acabar.
Caras-de-pau,
Pernas-de-pau,
Paus-de-arara,
Cavalos-de-pau, 

Sem que se meta ou assente o pau,
Sem que se core ou cante o pau,
Sem que se mostre com quantos paus...
Sem que se faça casas de pau-a-pique,
Sem pau-pau, e mais queijo-queijo, 

Pau-brasil,
Pau-de-sebo,
Pau-de-fita,
Pau-ferro, pau-de-óleo,
Pau-terra, pau-de-embira. 

Até por pau à-toa,
e roque pauleira,
morre-se de amores,
a se encontrar, é claro,
pau de sobra,
para toda a obra.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Pensares a conta-gotas (165)


Perguntas, só pra provocar  

            1 

Sempre se caminha
para o fim,
ou para o começo? 

Mira-se os fins,
o olhar nos recomeços,
neste ir e vir de vidas
de corridas e tropeços? 

Os fins justificam
os precisos começos,
e os começos, os fins? 

            2 

Por que pedir,
se há muito ainda
o que agradecer? 

            3 

A liberdade de imprensa
ainda é prova de decência,
de democracia e bem-estar,
ou só, ainda, vontade popular? 

4 

Se é melhor ficar calado,
ó rei do pecado
e da omissão! 

Por que a falta de zelo,
e só coçar o cotovelo,
e deixar o tiro franco,
quebrar as nucas do povo
faminto, eunuco e manco? 

            5 

Por que é difícil
carregar o nome
e seu passado,
se foi construído
sem apelido?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Pensares a conta-gotas (164)


Mais Brasília  

O cerrado era sozinho, quase que só silêncio,
deserto verde, assovios e firmamento,
pássaros, céu azul, sol e ares nevoentos,
terra de enxurros e chuvas de ventos,
córregos e rios violentos,
cachoeiras, e os remansos, em descansos,
que mais tarde se fechariam em lago,
monumento. 

Ali, passaram, dizem, atlantes,
índios, negros e brancos,
estranhos dos vagares dos espaços,
e mais tanta gente, autóctones, bandeirantes,
moradores do antigamente,
do bater do pilão, da enxada na mão,
do arado atrelado,
dos matos, roçados a facão. 

Andava-se, então, a pé ou a cavalo,
em canoas, pirogas ou carros de bois,
toldados para a peregrinação.
Ia-se, vinha-se e voltava
por caminhos ziguezagueados,
cheios de poças d´água, e imensidão. 

Mas um dia... aconteceu a profecia:
um pássaro diferente, enjaulado,
bem maior que o sonhado,
feito de aço e fogo,
vindo de lugares determinados,
sobrevoou aquele deserto de verdura densa,
para trazer mais gente
de tantos jeitos, e de mais ciências.  

Fincaram pé na poeira,
plantaram cruzes e luzes,
com muita casa rasa,
geminada e empilhada,
que, do nada, foram edificando,
tudo de civilizado,
de beleza, maravilha, fantasias. 

E, assim, nasceu Brasília,
a cidade sonhada,
santificada,
misturada a esperanças e poesia.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Pensares a conta-gotas (163)


(A cadeirante ilustre)  

Ele passa, entre sombras da quadra,
na cadeira de rodas,
como que a empurrar o vazio.
Mãos alheias o conduzem,
ignorantes de seus feitos e feitios,
em grandes eitos. 

Onde a consciência sã, a temperança,
a alta acuidade dos mistérios dos gestos,
a experiência ilibada da ciência,
a efervescência da vontade de acrescer ao humano,
a nítida noção das causas e dos efeitos irrestritos,
as críticas fundamentadas na vida e circunstâncias? 

Esquecidos ficarão,
à distância,
como a outros benfeitores,
os ditos e escritos. 

Pernas e braços bambeiam o debilitado corpo,
gestos desconhecem a mente vacilante,
olhos não divulgam o caminho em frente,
ouvidos já não ouvem os passarinhos,
dedos não apalpam as rugas do tempo,
sabores derrancam com os insossos alimentos,
flores perdem os perfumes e frescores dos ventos.

Não mais escreverá livros ou poemas,
morrem-lhe os sentidos, antes atentos,
fogem-lhe os calores de amores,
como poeiras dos desertos maiores. 

Implacável, a degenerescência dos atos,
que nem exaltam mais a lembrança das obras,
nem dos homens as ilusões das distantes cavernas,
a rabiscarem artes nas paredes das eras. 

Efêmeros, o autor e a vida,
evanescentes, os valores da criação,
Assim, o passageiro, artista,
altruísta,
é levado por mãos distraídas.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Pensares a conta-gotas (162)


Só não fazem, porque não querem.

Se o país tivesse cabeça,
tronco e membros abnegados,
convocaria crianças de rua,
as todas, pobres coitadas,
abandonadas. 

Dar-lhes-ia boa comida,
boa dormida, boa escola,
guarida às suas famílias,
e nenhuma esmola,
na sacola. 

Oferecer-lhes-ia opções de vida:
esportes, ad libitum, como usuários,
voluntários,
nas todas modalidades possíveis,
existentes,
segundo as aptidões apontadas,
nos treinos diários e atraentes.  

Músicas nos ritmos locais,
bem pontuais e variados,
muita cultura, muito teatro,
muita dança, lazer e literatura,
instrumentos, para as horas vagas,
segundo os interesses, e os altos ideais.
 
Em tempo recorde,
o país teria muito dinheiro poupado,
das prisões, dos hospitais
e de outros lugares mais;
o corpo retificado, a cabeça arejada,
o tronco sarado, o orgulho regrado,
e os membros, cidadãos consagrados,
com muitas medalhas no peito,
e o esforço recompensado.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Pensares a conta-gotas (161)


 
A ordem natural das coisas
se mostra grande desordem
nas mãos de desejos insanos
que não sabem compartilhar
o patrimônio do quotidiano. 

 

 
Medo e falta de sono
não foram o bastante,
para fazer-me esquecer,
mesmo que somente
por escassos instantes,
da vida e seus barbantes.
 
 
 
Meu pecado:
meu passado
constante
revisitado.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Pensares a conta-gotas (160)


O perigo demora,
do lado de fora,
em frente; 

arranha nas costas,
tal dente
de serpente; 

esbarra nos cantos,
ancas, quartos
e adjacentes; 

pesa do alto,
de lustres
pingentes; 

empurra de baixo,
gêiser, no gelo,
bem quente; 

aperta dos lados,
qual cinto
de couro premente. 

Fica-se, assim, à mercê
das pressões variadas
das esferas,
imperantes,
neste espaço pesado
de ingente atmosfera. 

Do alto, qual estalactites,
dos lados, labirintites,
de baixo, estalagmites,
acidentes a que nada resiste. 

São coisas do fado,
as cavernas internas,
estreitas,
cercadas.

 


A água correrá, ainda,
enquanto perdurar o juízo
dos homens sensatos,
inteligentes, cordatos.

Depois, seremos transumanos,
desertificados de bom senso,
reduzidos a gases de estrelas,
transladados para outros sóis
onde pudermos nos afirmar,
com pés de cabras e anzóis.

Lá, certamente, existiremos,
sem mais ganâncias,
com garantias de vida,
ar e água em abundância.