terça-feira, 27 de junho de 2017

Nuvens Esparsas (61)

Se eu fosse como um dos outros,
não seria eu, seria outro,
nem melhor, ou pior, ou menor
do que ora sou, ainda vivendo,
porque o destino foi feito,
para não me deixar escolher,
nem saber o que teria  sido,
se não tivesse sido como ora sou,
com os efeitos me perfazendo.

Esse, o jogo da vida que se leva
com o contínuo passar dos tempos,
no dia a dia das lutas e labutas
de uma guerra eterna irresoluta,
pela força bruta de viver vivendo,
à revelia do querer, sem poder,
de se ir aos poucos se refazendo,
até quando nunca se soube decifrar,
num mundo de girassóis ao Deus-dará. 

domingo, 11 de junho de 2017

Nuvens esparsas (60)

O tempo passa por Mendes 
Em homenagem a Waldomiro Vieira (Caixeta)

Depois das preces, aos abraços,
partem todos em motorizadas divisões,
deixando incertos os espaços vazios.
Viram costas às encostas, a co-irmãos.
Talvez mais do que o passado,
fica um recado de promessas de mais voltas.

O tempo parece se esquece tristonho
pelos corredores e escadarias desertificadas,
onde o cheiro impregnado, quase estratificado,
faz relembrar momentos de recolhimento,
de há muito largados como em redemoinhos,
sem movimentos.

Antes de também partir como os outros,
em debandada companhia de prima leva,
ele fica refém da alma diminuindo.
Quem ainda é capaz de suportar a sensação
de por último saudar, ou fechar os olhos por instante
a esses lugares ermos, edificantes?

A fazenda de Mendes não é mais de antiga mente,
está solitária, a resguardar memórias
e lembranças vivas, que cada ligeiro passageiro
carrega, com quantos por ali passaram,
que já se foram, que lá se vão, 
até quando, só Deus sabe, voltarão?

O vento, aragem do tempo, dos verdes da mata,
do silêncio dos caminhos, do frescor de amor,
das almas dos que vagam sem serem vistos,
se deixa fotografar pela sensação de brisa amena
daqueles sempre hesitantes momentos de partida,
entre ir ou deixar desérticos os monumentos.

domingo, 4 de junho de 2017

Nuvens esparsas (59)

Momentos

Uma escolha a cada passo.
Não sei se fico ou prossigo,
se deixo de fazer, ou refaço.

A cada instante, uma hesitação.
Não sei se antes, agora,
ou depois da hora acertada.

A cada esquina, uma vidraça,
ora opaca, densa como massa,
às vezes, fina neblina.

Vira-se à esquerda, ou à direita,
ou se vai sempre em frente,
que para trás é perder o tempo.

A cada momento, uma lição,
sem saber se boa ou ruim,
solução que se apodera de mim.

Tenho incerto roteiro a seguir,
se permanecer parado, serei levado
pelo desânimo de simples existir.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Nuvens Esparsas (58)

Não há longe, nem longes,
que não percorra o pensamento.
Num átimo de segundo,
mais que as distâncias da luz,
corre o que sempre nos conduz.

Não é o mundo, assim,
tão grande ou pequeno,
ou, mesmo, inacessível,
para amor que nos resume,
sem se entregar a ciúmes.

Há quem tenha a seu dispor
as chaves de abrir infinitos,
com a inexistência do tempo,
para o que der e quando vier,
onde só sentimentos houver.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Nuvens esparsas (57)

Se eu tivesse feito diferente,
em uma idade bem diferente,
tudo seria diferente, ou igual,
tudo poderia ter andado para trás,
ou para frente, horizontal.

Isso, agora, é-me indeferente,
deixo como está, comodamente,
aguardo que tempos e lugares
me reservem seu tanto potencial
de saberem ser complacentes.

domingo, 21 de maio de 2017

Nuvens esparsa (56)

A hora do desapego chega a galope.
Onde colocar o que não se leva?
O que fica é demasiado pesado,
para quem continua a caminhada.

Desfaz-se a mala para a viagem.
E não se sabe para onde ir,
se para lugares longe, bem longe,
ou se fica por aí, a vagar no ar,
à espera de breve retorno,
sem atrativos, sem mais adornos,
apenas uma aura fina como pele,
uma roupa leve de corpo-neblina.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Nuvens esparsas (55)

"Todas as religiões são benditas, 
todas se ligam e se religam a um Ser superior, 
que se propõe a fazer o bem". (do autor)



Bebo de todas as fontes,
que sejam de boa água,
com a sede do momento,
que não só me saciem a ânsia,
mas promovam deleitamento.

De algumas sorvo mais,
de outras degusto menos,
por afastadas ou vicinais,
dos lugares onde frequento,
ou revenho em renascimentos.