sábado, 10 de novembro de 2018

Nuvens Esparsas (100)


Aquarelas

Céu de lã, capuchos pedrentos,
carneiros penteados,
tarde de cores matizadas.

Nesgas de azuis profundas,
vestidos de róseas barradas,
cinzas diluídos, entremeados.

Olhos chorosos, escarlates,
arco-iris bebente, bilaterado,
águas-fortes, aquereladas.

Dias chuvosos, ânimo nevoento,
viagens da vontade, tardia de mundos,
eu contemplativo, extasiado, 
mudo de tudo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Nuvens esparsas (99)

A passagem


Finados,
dia sombrio,
ideias funéreas.

Como haverá de se dar o translado
desta para melhor vida infinda,
com senha definida, repetida,
em vai-e-vem catalizador?

Lugares vazios de entranhados mundos,
sempre se refazendo, girando,
iluminados, iluminando,
explodindo, se expandindo,
multiplicados, se multiplicando?

Quer-se a viagem sem dor, sem clamor
de ambos os lados:
do partir na sorte, e do chegar,
do recomeço e do tropeço na morte.

Para onde? Para algum lugar?
Céus e terras há para continuar,
infinitamente adequados,
em instantes certos ou ignorados.

domingo, 7 de outubro de 2018

Nuvens esparsas (98)

O tempo nem tempo tem,
que, de disfarce em disfarce,
inexoravelmente passa,
por minha mente frágil,
pobre já, doente de padecer
de atividades prementes,
ou, tão somente expectante
do que ainda possa acontecer!

Que me resta, então, fazer,
até lá, senão esperá-lo passar,
atento ao tic-tac dos anos,
ao sotaque claro dos instantes,
que, de verdade, nem sinal dá
de idade rudimentar,
nem nítidas marcas de acertos,
enganos, desenganos, consertos? 

sábado, 1 de setembro de 2018

Nuvens Esparsas (97)


Que teria sido,
se tão cedo tivesse
me dividido
com você?

Talvez, agora, estivesse
ressentido de mais olhares,
que, também, por tabela,
me puderam conhecer.

Talvez não me levassem
enfunadas velas e ventos,
a andar por lugares
que lograram me preencher.

Talvez desconhecesse
abraços cálidos,
que, por inteiro,
me souberam acender.

Talvez não me queimasse,
com ideias ardentes,
que, em mais sentidos,
me fizeram, assim, diferente.

Morno teria sido,
como antigamente?
O destino ladino,
de menos ou mais tino,
não determino.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Nuvens Esparsas (96)

Rosca sem fim:

Para cada passo, traços,
belos horizontes.
Para cada dia, luzes,
arrojadas travessias.
Para cada terreiro, flores,  
matizadas cores.
Para cada janela, solitude,
lágrimas de saudades.  
Para cada afago, bonanças,
merecidas bondades.
Para cada roteiro, receios,  
possíveis fantasias.
Para cada tecido, preceitos,
pensares em demasia.
Para cada altar, preces,
santos e santos protetores.
Para cada estória, sonhos,
imaginadas tramas.
Para cada ação, posturas,
desassombradas vontades.
Para cada broto, esperanças,
temperos da vida.
Para cada conta, rosários,
misteriosos ritos.
Para cada jeito, gestos,
benfazejas lembranças.
Para cada grito, ânsias,
intocáveis infinitos.
Para cada coisa, lugares,
ordenadas criaturas.
Para cada abraço, laços,
esquecidos temores.
Para cada encontro, promessas,
eternos recomeços.
Para cada olhar, propósitos,
momentos humanos.
Para cada semente, rebentos,
fertilizados amores.
Para cada virada, cuidados,  
evidenciadas memórias.
Para cada sinal, caminhos,
vindas e voltas infindas.

sábado, 18 de agosto de 2018

Nuvens Esparsas (95)

Não se pode dizer branquelo,
russo, pardo, preto, amarelo.
Aceitar-se-ia homem de cor,
branco, albino, alvo, negro, aço?
Que desafino! Que horror!
Que indesejável embaraço!

Pode-se pensar em atávico rancor,
vindo de qualquer lugar do mundo?
De praia, como efeito de ação solar?
De clínica, como fator de erreagá?
De coração, como conduto e vazão
de amor e fraternal abraço?

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Nuvens esparsas (94)

O que sou, o que represento,
o que soo, tão distante,
dentro da gigante imensidão?

Nem mesmo grão de poeira,
a vagar veloz e constante,
sem eira nem beira,
sem contramão, 
por privilégio, ou concessão,
entre galáxias, negros buracos,
vazios de espaços,
matérias plásticas,
cheio de vontades, imaginação,
em liberdade, sem qualquer 
incontida dimensão.