terça-feira, 16 de agosto de 2011

Pensares a conta-gotas (30)

O tempo passa,
Esvaziando nossa
Minguada taça,
Nascida, suposta,
Cheia de graças,
Enquanto, sutil,
Devassa a humana
Débil raça,
Em um mundo
Sem valores,
Ressequido nas cinzas
E corroído nas traças,
Amantes das dores.

Insensível, assim,
Sempre passa,
Volta e repassa,
Sem favores,
Apesar das preces
Das massas,
E seus contínuos
Vãos clamores.


O tempo, sempre o tempo,
A nos cutucar o entendimento.
Irrefutável, imutavelmente,
Nunca deixará que o mudemos
Enquanto, neste mundo pequeno,
A vida for só de valores terrenos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Pensares a conta-gotas (29)

Por que o medo de viver,
Senão pela ânsia de evitar
As vascas reais da morte?

O viver é sempre perigoso,
E o morrer é forçoso aceitar,
Sem o de como dele escapar.

Vive-se por missão de ocasião,
Até quando a sorte durar,
Ou, então, até quanto
A tensão suportar. 



Por que a louca procura
De descendência direta,
Pura e concreta,
De herdeiros verdadeiros,
Que reforce a legítima família,
Senão, a guarda das posses
E da suspirada mais-valia?

Por que se lega mais facilmente
A filhos de púrpuro sangue,
Às crias da dor da semente,
Ou do amor o mais langue,
Os frutos do esforço bumerangue,
Do suor do desgastado rosto,
Breve, a se retornar exangue?

domingo, 14 de agosto de 2011

Isso e Aquilo dos Bichos (1)

O Macaco

 (Para a Isabela, e todos os que gostam dos bichinhos, como eu.)

O macaco macaqueia
Nos gestos e nos sestros
E no resto.

Compadre macaco Argola
De feitio e jeito
Sempre mui gabola
Tem lá suas graças
Suas tretas e caretas.

Rei das cambalhotas e piruetas
Passa seu tempo todo
Fazendo graçolas pra garotada
Maravilhada.

E coça a orelha
E coça as costas
E coça o pé
E coça aqui
E coça ali
E coça lá
E coça e coça
E mais coçara
Se mais houvera onde coçar.

Só não coça o próprio rabo
Que diabo!
Que é o seu suporte da sorte
Quando no ar se lança e balança
Pra se mostrar.

Com pés e mãos em xis
Ainda coça a cerviz
Como quem diz:
“Macaqueio à vontade
E vivo feliz
Mesmo que salvo
Por um triz
De me quebrar o nariz.”

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Pensares a conta-gotas (28)

O apego às riquezas terrenas
Nos afasta, sempre mais, da certeza
De vidas mais amenas,
Em outras mais azadas naturezas.

Por que pensar em amanhã, sem vitória,
Nos talvez netos, talvez filhos e noras,
Se o que interessa é sempre o agora
Do afâ dos acúmulos e da vanglória?





O corpo humano exemplifica
Engrenagem magnífica:
Quanto mais se usa e exige
Mais preservada ela fica,
Menos carente de retífica
Em oficinas de autocrítica.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Contos Contados de Minas (5)

Lições de piano

(Depois do concerto de piano, com participação da minha sobrinha Elisa Fallieri do Nascimento Caixeta, no Auditório do SESC,,902 Sul, Brasília- DF, em 4/12/10. Relembrando, também, antigos momentos com o Dr. Marcos Lúcio,Rocha,  em Mendes-RJ.e Uberada-MG.)


            A Bíblia diz que, ao se dar esmola, que a mão esquerda não saiba o que faz a direita. Tirante a imagem para o desprendimento e a sinceridade do gesto da doação, poder-se-ia dizer que o desconhecimento de um órgão pelo outro não se revela possível. Como um olho pode desconhecer o que faz o outro, um pé o que o outro faz? Como acontece em qualquer texto, ou tecido, qualquer elemento está intimamente ligado aos demais. Assim, as orelhas, os pulmões, os rins, os fios de cabelo, os dedos das mãos, todos são desiguais e, nem por isso, menos unidos, no trabalho que o corpo reclama. Em se tratando de música, então, cada vibração de notas repercute em perfeita sintonia com todas as células do todo.musical. Se Deus criou os seres em harmonia, como tudo na natureza, uníssonos estarão mãos, olhos, dedos, ou quaisquer partes do corpo humano, e não podem desconhecer a participação de outras, na execução da grande sinfonia que traduzem os sentidos humanos. Mesmo com funções diferentes na orquestração das partituras musicais, os organismos encontram na solidariedade a grande sabedoria divina.
Quando me ocorre assistir a um recital de piano, fico observando o quão diferentemente age cada célula do artista, para produzir efeitos tão agradáveis, nascidos da magia de cérebros privilegiados, como os do compositor e os do executor da obra de arte em apreço. Há momentos em que os cabelos parecem dialogar com os olhos na consecução do todo harmônico, e me convenço de que o piano ocupa lugar de destaque entre os inúmeros outros instrumentos seus pares, pelas mãos, dedos, pés, pulmões e a própria alma do pianista.
Todavia, quanto trabalho e disciplina foram necessários para um aproximar-se da perfeição, desde os primeiros momentos do aprendizado aos últimos aplausos ao virtuose da beleza da arte! Quanta repetição, até que músculos e cérebro se identifiquem aos acordes harmônicos da sensibilidade artística!
            Isso me faz, então, lembrar de quando, recém chegada da zona rural, minha família foi viver na cidade, levada por meu pai, um quase analfabeto, que dizia, entretanto, não querer para os filhos o que não pôde usufruir, por imposição do destino: a falta de instrução escolar. A casa onde passamos a morar tinha como vizinhos um casal, com dois filhos, ajudantes do pai na loja de louças, duas filhas, já moças, além de um casal de menores, dos quais um foi meu colega em casa de formação religiosa, o que nos aproximou a quase irmãos consangüíneos.
            Um piano fazia parte dos móveis daquela casa vizinha e, a nosso entendimento, misteriosa. Como vim a saber, anos depois, o instrumento formara mais de uma geração de pianistas, entre eles meu colega de seminário, que chegou a ser o organista principal das missas solenes e prolongadas dos domingos e dias santificados, com o canto gregoriano ainda em pleno vigor litúrgico. Entretanto, à época em que fomos vizinhos, o que nos sobrava de lembranças daquele instrumento caudaloso era a capacidade de produzir sons descompassados, pelo dedilhar de alunos neófitos, nos mais diversos níveis de aprendizado, nas aulas que uma das moças ministrava. Ultrapassavam os vãos das janelas da sala e vinham ferir nossos ouvidos, minimamente apreciadores de tão nobre instrumento.
Ao longo do dia, aquelas notas desconexas e desprovidas de sinergia melódica, que pudesse redimi-las, extraídas das mãos ainda inábeis dos alunos, imprimiam uma cansativa monotonia ao nosso dia-a-dia.
Como desconhecêssemos o contexto da verdadeira música erudita e do instrumento que lhe deu tão preciosas relíquias, aqueles sons não deixavam de nos despertar sinais de irritação. Meu pai, acostumado ao chiado grave-agudo do carro de bois, ao mugir das vacas, ao canto do galo e dos passarinhos, soltos pelos verdes dos arvoredos do silêncio campesino, ao vir à cidade, em visita à família, sempre estranhava aqueles recitais inoportunos. Achava “enjoados” os exercícios monocórdios e sem cadência. Nunca pôde mudar o conceito que fazia do piano, por nunca ter tido a oportunidade de ir a um concerto (agora, sim, pensado com “C”) em que o sublime instrumento tivesse podido se redimir da indevida má fama. Em solo, ou em acompanhamentos a mais outros instrumentos e vozes, orquestrados na mais singela e harmônica beleza, o piano o teria feito mudar de idéia. Uma peça de Chopin bem executada o teria levado a esquecer momentos de insatisfação com aqueles sons desagradáveis.
Não posso me furtar a tão longínquas imagens, quando me acontece ouvir uma peça clássica, seja em disco ou ao vivo, na qual os acordes do piano entram-me pela alma a dentro, na mais absoluta abstração, que só a música sabe proporcionar. Hoje, incompreensivelmente, meu vizinho e colega parece ter abandonado os teclados pelos bisturis. Mas minhas velhas lembranças inspiram-me, ainda, textos como esses que dedico aos inúmeros prazeres que a Música sempre proporciona, e aos aprendizes que a ela se orientam:
             
Divina música
sonho,
a que céus mi levas
assim tão pluma?
Vôo de pássaros,
furam água e ar,
ma e espuma?

Música, apontas-mi,
assim, tão cil,
os encantos,
e mi viajas numa clave
de sol,
e z-mi ir
para de mim?
Música, até onde és sentida,
si o infinito
é mesmo assim infindo,
e tem sede de si
lêncio e sons
e/ternos?

Música, alivia
meus momentos
de pensador.
Quem sofre não tem lá,
nem si, nem
de ré-amar,
só alegrias de si dó-ar.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Pensares a conta-gotas (27)

O tempo só sabe passar
E não passa só
No rosto dos outros.

Cava fundo e destrói sem dó
Como rói nas rugas ignaras
A nossa deslavada cara.

Além disso, o espelho
E seus conselhos
Nos inverte a vista.

Impressão de artistas,
Só(l)dados à imaginação
Sem qualquer razão?

Pensares a contagotas (26)

Cuidado com os homens certos,
De quem nada se pode cobrar,
Mas que tudo cobram, sem pesar,
Por se julgarem sempre corretos!

Não oferecem flores, nem louvores,
Quando muito uns poucos ardores
Em momentos de favores insones.

Não somem, nem aparecem sem fome,
Nada fazem que os desabone e exaure,
E os alce aos píncaros dos luminares
Da glória e de enaltecidos renomes.

Não são falíveis, adeptos da bondade,
Mas severos, insensíveis e austeros,
Nem se permitem laivos de santidade.