Preconceito racial
Não se diz branquelo,
nem russo, pardo,
preto, asso,
amarelo.
Fala-se de homem de cor,
branco, alvo, negro, albino.
Pouco ladino!
Ou des/a/tino!
Um atávico desamor
faz-se pensar.
Com que teor solar,
com que fator de RH?
domingo, 29 de agosto de 2021
Migalhas de Mim (99)
segunda-feira, 23 de agosto de 2021
Migalhas de Mim (98)
Ouvidos
moucos
mais
se cansam
do
que alcançam.
Tudo
muda
tempo
passa
vida
encurta
homem
luta
menos
escuta
pouco
fala
introverte
e
cala.
Mundo
rude
menos
ouve
não
se comove
do
que procura
ganhar
mais tempo
voltar
atrás
ao
que se perdeu
e
pouco viveu.
Povo
estúrdio
se
arrefeceu.
Adeus
virtude!
sexta-feira, 30 de julho de 2021
Migalhas de Mim (97)
O sol bem pouco
mudou,
nesses
últimos milhões de anos-luz.
A lua
continua nua a nababos,
clareando
as noites dos amantes.
Mar e terra,
ainda, se respeitam
dentro de limites traçados.
O homem,
recém-nascido,
já começa a
perder a cabeça,
se achando
dono do mundo.
Mas quem sobreviverá
imune
à hecatombe
por vir,
preparada
pelos humanos,
a qualquer prejuízo?
Uma barata
tonta, talvez?
Um
escorpião indez, desorientado,
ou um vírus
inteligente,
multiplicando poderes,
invisível,
recém-acordado?
terça-feira, 27 de julho de 2021
Migalhas de Mim (96)
Não
gosto de fazer anos.
Quanto
mais os faço,
menos
sobram pr’eu viver.
Foi-se
o brilho do rosto,
depois, ficou mais tosco,
agora, um esgar mais fosco.
Não
é mais a vida,
mas
a ferida que conta,
a
invadir o débil corpo.
A
ultrapassagem é dura,
não
haverá como retroceder,
para
mais tempo viver.
Cada
um tem seu sofrimento,
mas
carrega somente o seu,
sem
qualquer fingimento.
(Lembrando
Arquimedes)
De
tão diminuto e mudo,
sem
nenhum apoio,
o
vírus levanta o mundo.
O
mundo segue rodando.
As
pessoas se amando.
A
mando de quem?
domingo, 25 de julho de 2021
Migalhas de Mim (95)
Pensamentos
em “randonnées”.
Com
o tamanho
dos
mundos,
passadas
se diluem
no
percurso galáctico
das caminhadas.
Por
aqui o tempo
é
escasso,
nem
se armazena bens,
que
nada se leva
além
dos passos.
O
tempo de vida
é
infinito e curto,
tão
rápido
que
só um susto,
surtos e percalços.
Num
próximo circuito,
há
de se refazer
a
trama dos bordados
que
se vai retecendo
encordoados.
segunda-feira, 19 de julho de 2021
Migalhas de Mim (94)
A
tudo se acostuma,
nesse
evolutivo sistema,
em
qualquer lugar,
por
quaisquer desertos,
desse
planeta de espumas,
tacanho, de rumo certo.
Nesse
mar de sal e águas,
nesse
universo sem margens,
nesse
vagar de rebanhos,
nesse
olhar de soslaios,
sem
grandes ensaios, aprendo
a
viver como rendo.
Nesse
curto prazo terreno,
de
percurso nazareno,
de
probatórios recursos,
nesse
aprendizado azado,
a
cada dia a minguar,
sigo
remando,
até
quando?
Nesse
eterno permanecer,
nesses
palcos sem tablados,
sem
claques, sem aplausos,
com
o que se põe em pauta,
muita coragem me falta,
com
a brevidade dos ocasos,
de menor duração em minuendo
do que orquestrado crescendo...
sábado, 22 de maio de 2021
Migalhas de Mim (93)
O medo de que o medo me rumine,
me domine, me desanime de vez
é medo de medo que dá o medo,
medo de ir e vir, de ser e estares,
medo de céu, de mar, de ar, de
terra,
medo de altura, de vales e
planos,
medo de prantos de tantos enganos.
Medo de me arrepender do feito ou
malfeito,
de ganhar e de perder o prometido,
medo de poder e não poder ser
arrependido.
Medo de comer cru pelo cozido,
o tíbio, ou o quente, ou o gelado,
o insosso, ou o de condimento
demasiado.
Medo de não cumprir o exigido no
tabuado.
Medo de existir, de mentir, de
falar a verdade,
de viver espalhafatoso, como propalado.
Medo do nada, em nada real ou fantasioso.
Medo de morrer, medo de luto, de
culto,
de ser como quem se acha por achar.
Medo de falar, de não falar, de
ficar calado,
de só escrever e sentir, de não
saber pedir.
Medo de me comprometer com o dito e
dizer.
Medo de subir, cair e me machucar.
Medo de andar distraído, de a cara esconder,
de conhecer, e de desconhecer o
lugar.
Medo de esquecer onde tiver que
parar,
sem saber o caminho, por de onde voltar.
Medo de obscuro, de escuro, de
detrás do muro.
Medo de sair, de prosseguir, varadouro,
de continuar vagamundo, em
conversas inúteis.
Medo do parado, de reparar no
agitado.
Medo de relativo, e de absoluto,
medo de desmedir, de enfrentar o
absurdo,
medo de abrir o livro e me fechar no
passado,
às portas do indefinido fim do mundo.
Medo de estrada improvisada,
medo de visão turva, de enxurrada,
de curva perigosa, por demais fechada,
Medo de escolhas na encruzilhada.
Medo de água, de seca e inverno
continuado,
de purgatório e de inferno por
exagerado.
Medo de me olhar, e me enxergar
enviesado.
Medo de me quebrar e não ter conserto,
de desarrumar sem poder concertar.
Medo de silêncio profundo, de soar enigmático.
Medo de barulho, de escombros
imundos.
Medo de bolha estourar, e me ver desnudo,
de rolha, de folha caída, de carne quebrada,
de escorregos na escada, de o
ventre virar.
Medo de prazer, de lazer, de ser
feliz.
Medo de só trabalhar, como ninguém,
ou de ser ocioso, danoso ao erário,
sem vintém.
Medo de ser medroso, além do necessário,
num mundo cada vez mais perigoso.
Medo de não ter medo, de passar por
corajoso,
num tudo fictício de tantos arremedos.
Medo de morrer de medo, na hora agá.
Medo de passar o tempo sem comprometimento.
Medo de fazer horas, a olhar o
tempo passar.
Medo de solidão, de multidão, de
relento.
Medo de tarde, de cedo, de vastidão
de firmamento,
Medo de sombra, de dia, de carestia
de alimento.
Medo de água fria, apatia, sem
mostrar ousadia.
Medo de beber e fazer mal à saúde,
bem necessário.
Medo de ano novo, de ser tudo de novo.
Medo de descascar melancia e cortar
o dedo.
Medo de não caminhar o trecho
traçado, direito.
Medo de não ser verdadeiro e fingir
invejoso.
Medo de gerar e recriar um texto
danoso,
Medo de morrer de medo de amar
demasiado.
Medo dos sinais, quando tudo é acabado,
de sentir, e consentir o mal explicado,
de esgotar o ignorado e não sentir o mal gosto.
Medo de dormir e acordar mal humorado.
Medo de explorar o lógico e o comprometido.
Medo de doar e ser pouco ou mal entendido.
Medo de pingo pingando, de ruído continuado.
Medo da noite, seus mistérios e
escuridões,
Medo do dia, suas doenças e transparências.
Medo das religiões e suas crenças irresolutas.
Medo da ciência não encontrar o
rumo,
da verdadeira verdade e suas irreparáveis
soluções.
Medo de fogo inesperado de queimar
pensares.
Medo dos azares e consequências de pesares
.
Medo de ser o que não sou por natureza,
levado na pressa por circunstâncias adversas
à minha própria vontade, controversa à clareza.
Medo de não ter certeza de saber pedir perdão,
quando o mais correto seria perdoar falácias,
sem ousar virar-lhes as costas por resposta,
pior castigo que ainda não há por inventar.
Medo de tudo, sobretudo, de não
pensar arrazoado,
demonstrativo, produtivo,
combativo, por pequeno.
Medo de não me comprometer e,
depois, desdizer.
Medo de ver cair a última ficha do
fichário terreno,
Medo de fugir do ordinário, do
salário da vida.
Medo do diário, do restante real ou
imaginário,
Medo de todo um tão vasto
interminável dicionário.