segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Migalhas de Mim (116)

 

Antes eram os ancestrais, dos anais,

depois, dos assentamentos dos avós,

de que e de quem nem se lembra mais,

e dos ais aos pais que se vão diluindo

na memória falaz, provisória e fugaz,

tal como se dará com os filhos, netos,

bis e tetranetos, retos, diretos, indiretos,

descendentes que fácil-fácil se esquecerão

das semelhanças que se amarelecem

nas peles e papéis dos velhos jornais,

nem se guardam mais na genética frenética,

jogados ao fogo, aos ventos dos elementos,

pois, passam-se as lembranças das heranças,

como a propriedade dos laços entrelaçados,

que os tempos fazem, desfazem e refazem,

sem mais consciências de ocupados espaços,

pelos jamais.

sábado, 6 de agosto de 2022

Migalhas de Mim (115)

 

Um erro, um cochilo,

um clique na desatenção,

em contramão,

na voracidade do ímpeto 

das vaidades

fazem-nos, num átimo,

em fumaça, de graça,

sem dor nem dó,

porque pós já somos,

desde Adão,

átomos de argila,

ainda molhada,

de outros dilúvios,

sempre de mal usos.

Para tanto não haverá

definição,

para outras quaisquer

soluções,

complicadas equações

enigmáticas,

dessa humana matemática.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

Migalhas de Mim (114)

 

Amizade paira acima

de qualquer título,

de qualquer estudo,

de qualquer escudo.

 

Amigos são mais

do que irmãos,

que não se demovem

por qualquer situação,

em contramão.

 

Amizade nasce

do coração e, até,

desconhece razão

desprovida de emoção.


xxx


Triste trovinha,

sem ou com razão:

irmãos por acaso,

amigos por opção,

dores de ocasião,

amores de doação.


sábado, 9 de julho de 2022

Migalhas de mim (113)

 

Poder-se-ia, a vida ser mais repetida,

com tempo bastante, para se viver

cada instante, intensamente,

como se é na eternidade,

sem medo, sem maldade,

sem pejo, sem vaidade,

somente como santos,

no paraíso de Dante,

como irmãos juntos,

sem agravantes?

Mas, não! O que se vê, então?

Guerras que nos aterram

e enterram os sonhos retumbantes.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Migalhas de mim 112

 

Arrepender do que, por leso,
não vivi ou deixei de o fazer,
ou do que, então, fiz opcional,
sem deixar proposital lesão?
 
Minha solidão é só minha,
de mais ninguém de companhia,
se, só comigo, consigo me encontrar
e me fazer compreender,
nesse solitário vagar de vida vadia!
 
Por que vivo de arrependimentos,
sem me julgar vencedor
de algum nobre empreendimento,
que ousei abraçar, sem muito pensar?
 
Imagino quem não encontre retorno
pelas estradas vividas,
quase sempre re-empreendidas,
como eternas jornadas de viagem,
de rotas escolhidas!

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Migalhas de Mim (111)

Minha vida se transcorre na estrada, 
cheia de quase que só encruzilhadas, 
de soluções instantâneas, 
individualizadas. 

Se me decido pela esquerda, 
desconheço o que me aguardaria 
na outra alternativa
da caminhada. 

Se me dirijo à direita, 
nunca saberei 
o que me reservaria, à esquerda, 
de dádivas ou avarias. 

Forças superiores, desconhecidas, 
guiam-me os passos, sem consultas, 
sem atrasos, que impeçam passagem 
a outros transeuntes dessa labuta. 

Sábia assertiva essa de quem 
me colocou nessa empreitada 
bruta de vida ativa, decisiva, 
dantes programada para disputa.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Migalhas de Mim (110)

 

Sempre o tempo passa.


A idade do homem prossegue apagando

certezas e seguranças de antiga sensatez.

Gentes titubeiam com medo de quase tudo,

falseiam passos em descompassos,

enfraquecidos e vacilantes pernas e braços,

frouxas as correias dos escudos  

e dos quantos laços.

 

Os sentidos mais se embaçam, no cansaço,

horizontes deixam de ser claros e largos,

gostos sabem sempre mais acres e amargos,

vistas pouco ou nada alcançam dos longes,

ouvidos passam a dar ouvido a silêncios, 

que nem, um tanto, deles se enternecem

no sensato imediato.


Vive-se de arrepios, arremedos, enganos,

o tato não é, assim, tão exato nos cálculos,

mãos ficam perdidas nas contas dum rosário 

de desgastados anos de ideários. Hélas! 

Não se é mais, nem por conveniência, 

tão loquaz ou, sobremodo, humano, capaz,

nem um pouco sagaz.