segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Migalhas de mim (2)


A cada ser sua sorte,
que tudo nasce e morre.
Até o sol, cedo ou tarde,
brilha intenso,
depois arde e explode.

À pedra, sua casa e cimento;
à árvore, sua mesa e cinzas;
ao capim seu viço e fermento;
à flor, sua beleza e luto;
ao fruto, sua cor e semente.

O boi, sua carne e couro;
a ave, seu canto e penas;  
o peixe, seu nado e alimento;
o homem, sua fome enorme,
conforme berço e nome.

De todos, o destino cobra caro
o mesmo desatino eterno e certo
da inexorável e temida morte,
ou o céu, a provação, o inferno,
o limbo, ou o vagar a esmo.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Migalhas de mim (1)


O que é isso?
O que é aquilo?
Por que isso?
Por que aquilo?
Para que serve?
Por que ferve?
Por que assim?
Por que agora?
Por que demora?
Por que começa
Por que o fim?

Por que não responder
ao acordar do contato,
por que não ajudar 
ao pro-curar do saber,
do entender imediato,
no primeiro filosofar
do ser diante do ser,
da criança, desde o início,
no ofício de perguntar?

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O último copo d´água

(Do livro "Poemas do For(n)o íntimo", 2009, texto mais do que atual, em tempos de Davos.)



O último copoágua será sorvido
pelo último magnata sedento
do planeta.

O último balão de oxigênio será inalado
pelo último rebento de magnata
do planeta.

O último grão de cereal será real
na boca descomunal
do último comensal magnata
do planeta.

A última nau estelar será tripulada
pelo último proxeneta magnata
do planeta.

Um último fugitivo da hecatombe final
não será um pobre esquálido perneta
muito, extinto,
no planeta.

Os labirintos inclementes da falência
engolirão as guerras da sobrevivência
sem som nenhum de trombetas...

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Nuvens Esparsas (102)


Não há como voltar o tempo,
vida, veto, voto,
atos, fatos não comprovados,
resultados forjados,
decisões impensadas.

Arrependimento não se resolve
a poder de cânones, de revólver,
de fogo aceso nas armas,
nem nas almas absorvidas
em mentalidades depravadas.

Corpos sofrentes, de prisão,
são jogados às valas comuns,
esquecidos por não expressos
em documentos de letras garrafais,
remorsos guardados no coração.

Melhor pensar antes de proceder,
ou ser forçado a deixar acontecer,
como imagens vindas da Tevê,
anestesia das mentes doentes,
ignorantes de distante vir a ser?

domingo, 25 de novembro de 2018

Nuvens Esparsas (101)


O que tem a natureza,
vento, chuva, estrelas,
relento, a ver com sensação
de só existir de momento?
Relação de essência.

Então, haja paciência!
Pouco adianta querer distorcer
meio ambiente de onde se veio.
Daqui se leva espavento
do poder da consciência.

sábado, 10 de novembro de 2018

Nuvens Esparsas (100)


Aquarelas

Céu de lã, capuchos pedrentos,
carneiros penteados,
tarde de cores matizadas.

Nesgas de azuis profundas,
vestidos de róseas barradas,
cinzas diluídos, entremeados.

Olhos chorosos, escarlates,
arco-iris bebente, bilaterado,
águas-fortes, aquereladas.

Dias chuvosos, ânimo nevoento,
viagens da vontade, tardia de mundos,
eu contemplativo, extasiado, 
mudo de tudo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Nuvens esparsas (99)

A passagem


Finados,
dia sombrio,
ideias funéreas.

Como haverá de se dar o translado
desta para melhor vida infinda,
com senha definida, repetida,
em vai-e-vem catalizador?

Lugares vazios de entranhados mundos,
sempre se refazendo, girando,
iluminados, iluminando,
explodindo, se expandindo,
multiplicados, se multiplicando?

Quer-se a viagem sem dor, sem clamor
de ambos os lados:
do partir na sorte, e do chegar,
do recomeço e do tropeço na morte.

Para onde? Para algum lugar?
Céus e terras há para continuar,
infinitamente adequados,
em instantes certos ou ignorados.