terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O último copo d´água

(Do livro "Poemas do For(n)o íntimo", 2009, texto mais do que atual, em tempos de Davos.)



O último copoágua será sorvido
pelo último magnata sedento
do planeta.

O último balão de oxigênio será inalado
pelo último rebento de magnata
do planeta.

O último grão de cereal será real
na boca descomunal
do último comensal magnata
do planeta.

A última nau estelar será tripulada
pelo último proxeneta magnata
do planeta.

Um último fugitivo da hecatombe final
não será um pobre esquálido perneta
muito, extinto,
no planeta.

Os labirintos inclementes da falência
engolirão as guerras da sobrevivência
sem som nenhum de trombetas...

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Nuvens Esparsas (102)


Não há como voltar o tempo,
vida, veto, voto,
atos, fatos não comprovados,
resultados forjados,
decisões impensadas.

Arrependimento não se resolve
a poder de cânones, de revólver,
de fogo aceso nas armas,
nem nas almas absorvidas
em mentalidades depravadas.

Corpos sofrentes, de prisão,
são jogados às valas comuns,
esquecidos por não expressos
em documentos de letras garrafais,
remorsos guardados no coração.

Melhor pensar antes de proceder,
ou ser forçado a deixar acontecer,
como imagens vindas da Tevê,
anestesia das mentes doentes,
ignorantes de distante vir a ser?

domingo, 25 de novembro de 2018

Nuvens Esparsas (101)


O que tem a natureza,
vento, chuva, estrelas,
relento, a ver com sensação
de só existir de momento?
Relação de essência.

Então, haja paciência!
Pouco adianta querer distorcer
meio ambiente de onde se veio.
Daqui se leva espavento
do poder da consciência.

sábado, 10 de novembro de 2018

Nuvens Esparsas (100)


Aquarelas

Céu de lã, capuchos pedrentos,
carneiros penteados,
tarde de cores matizadas.

Nesgas de azuis profundas,
vestidos de róseas barradas,
cinzas diluídos, entremeados.

Olhos chorosos, escarlates,
arco-iris bebente, bilaterado,
águas-fortes, aquereladas.

Dias chuvosos, ânimo nevoento,
viagens da vontade, tardia de mundos,
eu contemplativo, extasiado, 
mudo de tudo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Nuvens esparsas (99)

A passagem


Finados,
dia sombrio,
ideias funéreas.

Como haverá de se dar o translado
desta para melhor vida infinda,
com senha definida, repetida,
em vai-e-vem catalizador?

Lugares vazios de entranhados mundos,
sempre se refazendo, girando,
iluminados, iluminando,
explodindo, se expandindo,
multiplicados, se multiplicando?

Quer-se a viagem sem dor, sem clamor
de ambos os lados:
do partir na sorte, e do chegar,
do recomeço e do tropeço na morte.

Para onde? Para algum lugar?
Céus e terras há para continuar,
infinitamente adequados,
em instantes certos ou ignorados.

domingo, 7 de outubro de 2018

Nuvens esparsas (98)

O tempo nem tempo tem,
que, de disfarce em disfarce,
inexoravelmente passa,
por minha mente frágil,
pobre já, doente de padecer
de atividades prementes,
ou, tão somente expectante
do que ainda possa acontecer!

Que me resta, então, fazer,
até lá, senão esperá-lo passar,
atento ao tic-tac dos anos,
ao sotaque claro dos instantes,
que, de verdade, nem sinal dá
de idade rudimentar,
nem nítidas marcas de acertos,
enganos, desenganos, consertos? 

sábado, 1 de setembro de 2018

Nuvens Esparsas (97)


Que teria sido,
se tão cedo tivesse
me dividido
com você?

Talvez, agora, estivesse
ressentido de mais olhares,
que, também, por tabela,
me puderam conhecer.

Talvez não me levassem
enfunadas velas e ventos,
a andar por lugares
que lograram me preencher.

Talvez desconhecesse
abraços cálidos,
que, por inteiro,
me souberam acender.

Talvez não me queimasse,
com ideias ardentes,
que, em mais sentidos,
me fizeram, assim, diferente.

Morno teria sido,
como antigamente?
O destino ladino,
de menos ou mais tino,
não determino.