domingo, 7 de outubro de 2018

Nuvens esparsas (98)

O tempo nem tempo tem,
que, de disfarce em disfarce,
inexoravelmente passa,
por minha mente frágil,
pobre já, doente de padecer
de atividades prementes,
ou, tão somente expectante
do que ainda possa acontecer!

Que me resta, então, fazer,
até lá, senão esperá-lo passar,
atento ao tic-tac dos anos,
ao sotaque claro dos instantes,
que, de verdade, nem sinal dá
de idade rudimentar,
nem nítidas marcas de acertos,
enganos, desenganos, consertos? 

sábado, 1 de setembro de 2018

Nuvens Esparsas (97)


Que teria sido,
se tão cedo tivesse
me dividido
com você?

Talvez, agora, estivesse
ressentido de mais olhares,
que, também, por tabela,
me puderam conhecer.

Talvez não me levassem
enfunadas velas e ventos,
a andar por lugares
que lograram me preencher.

Talvez desconhecesse
abraços cálidos,
que, por inteiro,
me souberam acender.

Talvez não me queimasse,
com ideias ardentes,
que, em mais sentidos,
me fizeram, assim, diferente.

Morno teria sido,
como antigamente?
O destino ladino,
de menos ou mais tino,
não determino.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Nuvens Esparsas (96)

Rosca sem fim:

Para cada passo, traços,
belos horizontes.
Para cada dia, luzes,
arrojadas travessias.
Para cada terreiro, flores,  
matizadas cores.
Para cada janela, solitude,
lágrimas de saudades.  
Para cada afago, bonanças,
merecidas bondades.
Para cada roteiro, receios,  
possíveis fantasias.
Para cada tecido, preceitos,
pensares em demasia.
Para cada altar, preces,
santos e santos protetores.
Para cada estória, sonhos,
imaginadas tramas.
Para cada ação, posturas,
desassombradas vontades.
Para cada broto, esperanças,
temperos da vida.
Para cada conta, rosários,
misteriosos ritos.
Para cada jeito, gestos,
benfazejas lembranças.
Para cada grito, ânsias,
intocáveis infinitos.
Para cada coisa, lugares,
ordenadas criaturas.
Para cada abraço, laços,
esquecidos temores.
Para cada encontro, promessas,
eternos recomeços.
Para cada olhar, propósitos,
momentos humanos.
Para cada semente, rebentos,
fertilizados amores.
Para cada virada, cuidados,  
evidenciadas memórias.
Para cada sinal, caminhos,
vindas e voltas infindas.

sábado, 18 de agosto de 2018

Nuvens Esparsas (95)

Não se pode dizer branquelo,
russo, pardo, preto, amarelo.
Aceitar-se-ia homem de cor,
branco, albino, alvo, negro, aço?
Que desafino! Que horror!
Que indesejável embaraço!

Pode-se pensar em atávico rancor,
vindo de qualquer lugar do mundo?
De praia, como efeito de ação solar?
De clínica, como fator de erreagá?
De coração, como conduto e vazão
de amor e fraternal abraço?

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Nuvens esparsas (94)

O que sou, o que represento,
o que soo, tão distante,
dentro da gigante imensidão?

Nem mesmo grão de poeira,
a vagar veloz e constante,
sem eira nem beira,
sem contramão, 
por privilégio, ou concessão,
entre galáxias, negros buracos,
vazios de espaços,
matérias plásticas,
cheio de vontades, imaginação,
em liberdade, sem qualquer 
incontida dimensão.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Nuvens esparsas (93)


Coração,
de tão dividido,
perde o sentido,
combalido.

Cada pedaço,
perde os laços, 
que o ligam a espaço 
indefinido.

Imarginado no tempo,
ilimitados com-passos,
sem embaraços, 
reconstruido.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Nuvens Esparsas (92)


Tudo enxergo dual,
me locomovo, e me comovo
em duplicidades:

Há pertos, e longes,
desertos, e mares,
passos, e descompassos,
alegrias, e lágrimas,
contratempos, e sorte,
vigílias, e sono,
abundâncias, e carências,
reencontros, e saudades,
alertas, letargias, e rotinas,
novidades em quantidade.

Até os enamorados
se amam, e se duplicam,
em estreitas parcerias:

Sem barreiras, e controles,
medos, e covardias,
falta de tempos, e permanências,
dores sofríveis, e intensas,
esperas curtas, e longevas,
laços frágeis, e passageiros,
amor carente, e silêncio,
ânsias soltas, e envolventes,
desejos insaciáveis, e vidas insatisfeitas,
que vão e voltam, eternamente.