quinta-feira, 3 de maio de 2018

nuvens esparsas (88)

Meta-morfoses

No fundo, sou expectante da certeza,
de mais passos, longos e largos,
medidos a espaços de anos-luz,
de desconhecidos lugares e terrenos,
por onde ainda haverei de vagar.

Aprendi a andar meditativo,
a olhar para frente, e os lados,
a não perder o rumo dos chãos,
a fugir de barrancas cavoucadas,
a evitar erros, quedas precipitadas.

Busco lugares serenos, amenos,
aclarados a luzes de luas calmas,
e estrelas de maior fosforescência,
firmamentos menos tensos,
e céus de mais transparência.

Vislumbro horizontes mais extensos,
sem perder o prumo e o equilíbrio,
apoiando-me constante nos arbustos,
para não titubear, como embriagado,
sobre pedras agudas de descampados.

O que mais me importa será chegar
a algum lugar hospitaleiro,
onde possa enxergar com mais clareza
o que procuro, com grande apuro:
conhecimento edificante e maduro.

Ouso me encontrar por inteiro,
de mente e juízo verdadeiros,
e corpo fortificado, e obediente
a ditames de estáveis congruências,
e certames de últimas urgências. 

terça-feira, 24 de abril de 2018

Nuvens Esparsas (87)


“Vós, Senhora, tudo tendes
sendo que tendes os olhos verdes.

Dotou em vós Natureza
o sumo da perfeição;
que o que em vós é senão,
é em outras gentileza:
o verde não se despreza,
que, agora que vós o tendes,
sam belos os olhos verdes.

Ouro e azul é a milhor
cor por que a gente se perde;
mas, a graça desse verde
tira a graça a toda a cor.
Fica agora sendo a flor
a cor que nos olhos tendes,
porque são vossos... e verdes!” 

(transcrito de Rimas de Luis de Camões, Nova Edição , Revista, Coleccão Literária Atrântida , Coimbra, 1961, p. 33)

Troco, de Camões, verde por azul,
que, além de ser, também,
mui belo, e, não, breu,
é a cor do céu singelo,
e a cor, Alice, que Deus lhe deu!

(“Bobô” Joaquim)


Olhos de Alice

Quem te brindou
com tal par de olhos
azuis, pérolas de luzes,
d´água-marinha singular?

Rainha ciumenta, 
Natureza não cobra 
valia sobre beleza,
e concertada obra.

Só a complementa 
de mais encantos, 
e, de graça, a ostenta
aos quatro cantos.

domingo, 15 de abril de 2018

Nuvens Esparsas (86)

A flor, por desejada,
se ajeita, se enfeita,
para alegria das festas.

Com o tempo, pouco resta,
padece esquecimentos,
esvanece, por rejeitada.

Murcha e desfeita,
a flor abaixa a testa,
sai da vida, inanimada.

Como qualquer ser vivente,
nasce, viceja, e morre
após a luta, resignada.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Nuvens Esparsas (85)


Criação:

Terras úberes,
jovens, frescas, macias.
Plantaram-se, ali, sementes, 
antes dormentes,
para serem procriativas
como nunca vistas.

Nasceram, como nascem
vigorosas promessas,
rebentos de vidas novas,
joviais, luzentes, sadias,
a se perpetuarem
como eternas liturgias.


segunda-feira, 2 de abril de 2018

Nuvens esparsas (84)

De tanto revirar gavetas,
acaba-se por se perder em aihs!,
como referências sentimentais
dos amores ali guardados.

Também eles o perderam,
sem mal-querências reais,
sem caprichos, sem feitiços,
sem tantas de-pendências.

Difícil será se reencontrarem,
para mais enlaçados sonhos,
corporificados abraços de treliças,
cicatrizados traços de lembranças.

Almas, quase nunca, se esquecem
em pensares, mesmo a conta-gotas,
tais e/ternos tempos a esgotarem
areias de ampulhetas movediças.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Nuvens Esparsas (83)


Há os que se cansam
de passarem por maus,
e passam a ser bons,
como efeito de esperteza,
ou plano de defesa.

Há os que se cansam
de serem bons, por opção,
e passam a austeros demais,
com pouca chance
de voltarem a tempos atrás.

Somente a humana natureza,  
para lançar lume à questão:
quem recusa empréstimo
conserva fiéis os amigos,
e prazeres de bom convívio.

Outros, só por emprestar,
têm, quase sempre, o desgosto
de terem de cobrar o atrasado,
e pagar imposto do ar severo,
com gosto amaro de mau-olhado.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Nuvens esparsas (82)


Se é arte ou não, não sei,
por carência me safei de definição!
Mas sei que arte se fez e se faz,
sem desfazer razões de montão.

Se pintei os setes de meus nomes,
de minhas datas e idades,
coincidentes a tantos acidentes
de percalços e percursos, pois não!

Minhas “malasartes” não conhecem museus,
não ganham prêmios, nem evocam críticas,
por inexistência de genuflexões, quiça!
Ou por serem tão só rabiscos de ocasiões.

Traduzo meu viver diário, porventura!
sem muito saber divulgar meus pensares
direito e diretos, por desnecessários,
em palcos de concertos imaginários.

Não lhes procuro aval, mas vau, quem sabe!
Se leitores os validarem, valeu a ousadia?
Talvez, sim, talvez não!
Se acudirem à penada, louvadas as tintas,
que, por precisão, os avocaram!