sexta-feira, 24 de julho de 2015

Nuvens Esparsas 5


Deus me vê, não me censura.
Olho de Deus nunca foi ciclópico,
microscópico, telescópico,
triangular e duro.

Deus nunca me olhou no banheiro,
nem me enxergou no escuro,
como na “Consciência” de Hugo,
sob o solo, longe de mim,
dentro da muralha de Tubal Caim.

 Olhar de Deus é de bondade,
vontade de ajudar, solidário,
peregrinos,
em caminhar solitário.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Núvens Esparsas 4


 
Não insista,
espelho não mente,
carne murcha,
pele perde o brilho,
vista embaça,
beleza causa estranheza,
odores se exalam,
sons se confundem,
e do mosto da uva,
perde-se o gosto,
tempo passa
implacavelmente.

 

*** 

 
Morre-se
de tudo um pouco,
de alegrias, de dores,
de horrores
e amores.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Núvens Esparsas 3


Idade! Que idade,
nestes infinitos sem começos?
Que gota de neblina,
nestes oceanos sem parâmetros,
sem esquinas, sem tamanhos.

Quem inventou o tempo,
nestes mundos atemporais?
Quem se lembra de locais,
nestes espaços cósmicos
sempre reais, sempre lógicos?

 
***

 
Não sou mais dono desses lugares,
sou ânimo que por eles vaga
e divaga,
enquanto estiver, por aí,
eterniz/ando andares.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Núvens Esparsas 2

Bem pouco faço por merecer
tamanha mordomia:
cama macia, comida farta,
boas saúde e companhia.

Pouco agradeço,
todo dia, reclamo
por mais espaço de bem-querer,
como se meu balaio forrado
fosse largo, sem fundo,
para caber todo o prazer
do mundo!

Se olho de lado,
vejo o que é ser coitado,
bem ao inverso de meus desejos:
calçada dura, noite fria,
eventual comida,  
desalentados da vida.

Indignados da sorte,
tropeçam, a cada passo, na morte,
não ascendem ao paraíso,
na contramão da razão e do juízo.

Razão de tal diferença,
simples cumprimento de sentença,
promulgada de próprio punho,
n´outra dimensão imensa?

sábado, 18 de julho de 2015

Núvens Esparsas 1

 
Um dia, seremos Marte,
à procura de vida
ou morte.

Lá, havia mar,
água de beber e chorar,
vontade de viver e andar.

Mas os homens de lá
não souberam se precaver,
como os daqui
não sabem como fazer.

A vida de lá se deixou levar
em turbilhão de poeiras
sequidão e falta de ar.

Micros seres, vírus e companhia,
talvez, um dia, nos esperem
com fome demais
de se perpetuar.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Pensares a conta-gotas (285)


A mulher procura amor,
o homem mais amor e sexo.
Ela quer nexo nos contatos,
ele finge mais, no ritual
de atos complexos.

A mulher se dissolve em afetos,
para dar conta do sexo completo,
o homem se liga menos a gestos,
se contenta a calor de amplexos.

Do enlace do raso e do profundo,
do divino e do mais profano,
resulta o mundo, humano e fecundo,
de duas mentes, dois juízos,
de dois desejos conexos,   
ímpetos e suaves sentidos:
um, de doação repleta de amor,
outro, também, de amor, comedido, anexo.




Quando posso,
ponho-me a pensar,
e me trespasso,
estático, estético,
e-nig-má-ti-co, emotivo,      
sintético, cômico,
trágico, até patético,
me acho.

Quando penso,
ponho-me a andar,
paro e passo, me revezo,
cruzando eixos, dialético,
ora sincrônico, ora seletivo,
ora sin-tag-má-ti-co,
ora pa-ra-dig-má-ti-co,
sempre a pé, pe-ri-pa-té-ti-co.

domingo, 9 de março de 2014

Pensares a conta-gotas (284)


Versos brancos, brandos,
ou bambos,
(o que importa a largura
de pernas e pés?)
de rimas escassas, pobres ou ricas,
sem precisão,
de menos flores, mais ardores,
mais  emoção,
soltos e livres, como nos abraços,
fortes ou lassos,
são o que de melhor ainda faço,
e desfaço e refaço
a cada leitura, de ocasião.



Dos pingos e respingos  
destas bagas, em estrada poeirenta,
caídas, como já outras,
e mais outras a bem molhar,
recolhe-se o barro,
com que se emoldura textos,
de consistências várias,
como em muros de ousadias
por querer chamá-los de poesia.

O poético, como a poeira, os ventos,
nascido de caminhos diversos,
íngremes, curvos, suaves, retos
paira acima dos invólucros das letras,
das tintas fracas ou das fortes cores,
para servir a todos com alma lavada,
os que dele se julgam merecedores.