segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Pensares a conta-gotas (276)


Haikais fingidos 22

Entardece,
fantasmas se disfarçam,
tecem fantasias. 

 

Mapa mundi: o Canadá
estica as orelhas, arregala os olhos,
parece cabeça de lobo. 

 

Mapa mundi: a América do Sul
olha as costas da África,
lamenta a separação.
 
 

A criança fixa
o tempo que morre:
não tem palavras. 

 

O jovem fixa
o tempo que corre,
e se perde com o tempo. 

 

O moribundo esquece
os instantes que sobram
e fecha os olhos. 

 

Ao amor que não tive
escrevo com a alma
poemas de pesares. 

 

Pior é olhar para o passado,
não vislumbrar o futuro,
mesmo presente no escuro. 

 

Minutos de indecisão:
águas vão e voltam,
no pingar de chuva. 

 

Quem decide os caminhos
de ir à labuta:
pernas ou pensamentos? 

 

Faz tempo, o relógio
se esqueceu
de gastar o tempo. 

 

Cristalina, a água fresca
se espreguiça no cascalho.
O sol refresca os olhos.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Pensares a conta-gotas (275)


Haicais fingidos 21

Por que festejar aniversário!
Mais lógico contar os dias,
com o passar dos anos. 

 

O mundo às avessas
são os desastres da sorte,
e da pressa. 


O sol não esconde o verde,
nem a sombra a verdade.
Peneira é transparente. 

 

A areia movediça
engole a vítima,
não a devolve à tona. 

 

Fazer barulho
nunca foi motivo
de se livrar do entulho. 

 

Do orgulho do leão
lucra-se o mínimo
da proteção. 

 

Para se diluir o feio,
realça-se a feiura,
menos freio na pintura. 

 

Da árvore à flor, ao fruto,
à semente da vida:
nova mente. 

 

Seriema quando choca
vira bicho
de se fazer asas e penas. 

 

Casa de janelas azuis,
a varanda pisada de brilhos
dependura redes ao vento. 

 

Bomba H:
o homem enlouqueceu,
perdeu a cabeça. 

 

Homem ou mulher,
X ou Y?
O último cruzou as pernas.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Pensares a conta-gotas (274)


O que pensa Deus,
ao receber preces diversas,
de bons e maus pagadores? 

Fica, qual juiz inquiridor,
impassível, imparcial,
à espera de final feliz? 

Ou, por conhecer, de antemão,
quem é menos ou mais devedor,
já dispensa contas de penhor?
 
 
 
Oração do “bobo” 
 
Diz a lenda que um bobo,
de presença rara na igreja,
ao padre confessa a razão
das impiedosas ausências: 
 
“Faço minhas orações,
como as abelhas os favos,
defronte aos montes,
de lá onde moro e me demoro. 
 
Quando me levanto,
me lavo e oro,
só mente: “um, dois, três,
obras que Deus fez!” 
 
Alinhava, assim, de sons cavos,
mesmo que longe de luminares,
escravos de desagravos,
ou laivos de bafejos benfazejos,
nos azulejos frios de altares seculares.        

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Pensares a conta-gotas (273)


Haicais Fingidos 20 

É sempre assim:
na hora do sim
o frio vem da barriga. 

 

Na hora H,
o falso herói se destrói,
roendo as unhas. 

 

É preciso andar
depressa ou devagar,
para se chegar a algum lugar.

 

Quem fica parado, some,
morre molhado,
ou seco de fome. 

 

Abrigo, sempre se acha
embaixo de árvore,
à sombra do umbigo. 

 

Andou correto,
nos horários do relógio,
ou do necrológio. 

 

Reserva-se o direito
de ser como é,
de viver como quiser. 

 

Fica cansado
a escutar o tempo:
tartaruga cala ao nadar

 

No dia D. o soldado
prestou continência
à sorte.  

 

No absurdo da guerra,
só não corre
quem morre no front.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Pensares a conta-gotas (272)


Haicais fingidos 19

Onde dormem as sumidades,
teóricos da verdade?
Perderam-se na vasca da mente. 

 

Quantos heróis de livros,
desaparecem lívidos,
em névoas do olvido! 

 

Heróis conhecidos,
nascem nos livros
escritos por amigos. 

 

A magnitude dos heróis
se apequena
nas distâncias das histórias.  

 

Vaidade das vaidades!
Salomão fez e aconteceu,
depois, apodreceu. 

 

Pecado bíblico:
Davi mandar à morte
o marido da consorte. 

 

Para que céus vamos voar,
se nem mesmo asas
pudemos criar?! 

 

Pessoa feliz não usa camisa,
nem economisa os assovios,
para si mesmo. 

 

Imagens passam por nossas vidas
e desaparecem nas nuvens,
como almas.  

 

Pessoas infalíveis
desconhecem a razão
de ações de ocasiões..

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Pensares a cnta-gotas (271)


Haicais fingidos 18

A maior parte do tempo
andamos juntos,
com os pensamentos. 

 

Anda-se sozinho,
acompanhado
de atos impensados.  

 

Escolhas de rumos,
mil bifurcações
de difíceis soluções. 

 

A gata na janela
lembra esfinge
recoberta de flanela. 

 

Amor se encolhe,
não escolhe alívio,
mesmo em convívio. 

 

Mundo caótico,
fica-se caolho de olhar
o lado errado do ar. 

 

Se “julgo por mim",
imagine-se fosse
“para” os outros! 


Por que tanto pensar,
quanto mais procuro,
menos me acho?
 
 

O relógio se esforça
em trabalhar com tempo,
mas sofre parado. 

 

Quanto mais o tempo passa,
menos tempo sobra
para recomeços de manobras.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Pensares a conta-gotas (270)


Haicais fingidos 17
 

O universo:
grãos de poeira soprada
em tornados no infinito.  

 

Ideias incendeiam-se:
comodismo nunca foi
bom de ofício. 

 

Para fugir à realidade:
o bêbado embriaga-se
à liberdade. 

 

A onça dorme de dia:
luz intensa inebria
os maus pensamentos. 

 

A árvore abre os galhos:
para melhor enxergar
as penas dos passarinhos  

 

Periquitinhos verdes:
alaridos de crianças,
em festa de aniversário. 

 

Na mata, a orquídea veste
um lenço vermelho
no pescoço da árvore.  

 

Da rua, débeis vozes
acordam a luminosidade
diáfana da criança. 

 

A idade enfraquece
o tempo não insiste,
se esquece da inexistência. 

 

Papel aceita tudo,
menos o que estertora
na vasca da memória.