sábado, 6 de fevereiro de 2016

Cantos e (des)encantos (17)


(Eu)

Eu:
modelo mutilado
do progresso.

Enganei-me ao buscar na rua
a emancipação
falaz sucesso.

no mato tem tudo:
luz de sol mais verde
água de rego mais doce
noite mais infinita
amor de estrelas.

Sedução
não a mim acometida!
Vida retorcida, reprimida!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Cantos e (des)encantos (16)




                                         
Minha voz transmuda-se em riscos,
estrondo é o silêncio na pena,
meu poema é vulcão e lavas,
consciência da imperfeição
meu tema.

Debaixo desta calma tem borrasca,
no borralho dessas cinzas, brasas,
não grito meu sufoco,
com medo de tudo se queimar
em nada.

Meu poema é caverna,
tênebra minha voz, mormaço.
Meu lema é destino
ora desafino,
ora desabafo.


                         (Poemas gêmeos)



Para toda subida              Para toda descida
uma descida.                    uma subida.             

Nunca que se sobe     Nunca que de desce
ou se desce                 ou se sobe
na face do orbe.               na face do orbe.

Para toda tristeza             Para toda certeza
uma certeza.                    uma tristeza.

Nunca que se sofre     Nunca que se salva
ou se salva                  ou se sofre
na roda da vida.               na rodada vida.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Cantos e (des)encantos (15)


Poemas se vestem de prosa

em versos a prosa traveste

e diverte.



De que serve

o que importa

o que suporta

a pouca roupa

da verve?



O que se investe

é o livre pensar.

Da fruta, a parte boa,

o melhor sabor

é o da polpa.



Os escritos não são assim

tão ex-atos,

mas crus relatos.



Eis a verdade de que tantos fogem:

o medo é dos que dela carecem,

velhos vates e vaidosos.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Nuvens Esparsas (16)


(Ofício)

Em recortes de papéis,

margens de livros,

espaços livres de letras,



ideias ar/riscadas de leve,

buriladas a lápis rasos,

de retoques ligeiros, tropéis,

repassadas a limpo,




nos apuros de cinzéis,

do texto olímpico.





 ***





Seguir a pé dá lugar ao cavalo,

que cede ao biciclo,

que cede ao triciclo,

que cede ao motociclo,

que cede ao automóvel,

que cede ao avião,

que cede ao foguete,

que cede à cósmica visão,

que me excede à fissão, e leva

ao recomeço de mim.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Nuvens Esparsas (15)


Língua portuguesa, brasileira,

rica, de beleza provada, lume verdadeiro,

sabor mestiço e mais misturas,

acervo de variadas culturas, vivas cores,

estatura de estrelas do cruzeiro,

branca, negra, vermelha, verde-amarela,

aipim, beterraba, cenoura, berinjela.



Aberta morada, de muitas entradas e saídas,

largas portas, solarengas janelas,

por onde sopra cheio de ideias, o vento,

e o telhado ao sol, efervecente, reverbera,

sem precisar importar suprimento,

oriundo de plagas adversas, passageiras,

para melhor expressar as luzes do mundo.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Nuvens esparsas (14)


Melhor seria parar de pensar,

e não sofrer

por antecipação.



Melhor seria se deixar levar

ao léu dos acontecimentos,

e pagar pelo acontecido,

segundo leis dos combalidos.



Mas, a consciência da situação,

que leva a padecimentos,

resiste a desagradáveis conflitos.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Nuvens Esparsas (13)




A Terra será mais um asteroide,

desses frios e vazios,

sem tino ou destino,

perdido nos confins dos espaços,

de traços desfeitos, amarelecidos?



Não haverá tempo, nem lugares,

nem ânimos que lhe deem sentido,

inexoravelmente, ardido como lenha,

consumidas as entranhas e energias,

transformado em mais formas estranhas?



O que é o céu, indevassável véu,

universo sem em cima ou embaixo,

sem de frente, ou de lado,

sem referência à razão, ou ciência?

Inconsistência da existência.