sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Novos Pensares 1



Bachô: “Uma pimenta / Colocai-lhe asas: / uma libélula rubra”.
“Velho tanque. / Uma rã mergulha: / barulho da água”.
Do discípulo Kikaku: “Uma libélula rubra. / Tirai-lhe as asas: / uma pimenta”.


Haicai: lampejo,
imagens engolem
instantes de tédio.



A rã de Bachô
deixa,de novo,
no poço, a calma.

                   
Desassossego.
Bachô mergulha
olhos d´água.  



Libélulas,
pimentas vorazes,
larvas criam asas. 


Inseto fecundo,
libélulas povoam
pântano amargo.                                                                                                                            



Moinhos abadonados
enchem-se de sentidos,
poemas curtos.


Nem nuvens no céu,
cimos desvelados:
azul profundo. 


Zás-trás de maldade, 
bomba H ascende
cinzas do vômito! 



Sem mais correrias,
prudência apascenta 
avarias de adeus.



Cuidado com os santos,
anjos da guarda! 
Balanços do andor.



Santo Antônio de costas,
fato bisonho.
Prova de amor ou sonho?



Deus vem com jeito,
Santo Antônio com gancho,
rede armada do rancho.



Cantar o amor,
sem emoção,
reclusão e dor. 


Chegada a hora,
morte não enrola:
degola e sai fora. 










segunda-feira, 27 de julho de 2015

Nuvens Esparsas 6


Vêm chegando os trovões,
acompanhados de tremores,
de luzes e sons ameaçadores.

Ventos empurram nuvens
pesadas e escuras
que a noite esconde.

Ignoram quem se ampara
por debaixo de telhas
de medos e fragilidade.

Os trovões ribombam,
relâmpagos centelham,
seguidos de tons sempre mais próximos.

Encolhidos, os humanos
pensam se protegerem
da força dos elementos.
 
Passam os trovões, os relâmpagos,
e a chuva chega mansa, de convívio,
para mais um tamborilar nas telhas do alívio.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Nuvens Esparsas 5


Deus me vê, não me censura.
Olho de Deus nunca foi ciclópico,
microscópico, telescópico,
triangular e duro.

Deus nunca me olhou no banheiro,
nem me enxergou no escuro,
como na “Consciência” de Hugo,
sob o solo, longe de mim,
dentro da muralha de Tubal Caim.

 Olhar de Deus é de bondade,
vontade de ajudar, solidário,
peregrinos,
em caminhar solitário.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Núvens Esparsas 4


 
Não insista,
espelho não mente,
carne murcha,
pele perde o brilho,
vista embaça,
beleza causa estranheza,
odores se exalam,
sons se confundem,
e do mosto da uva,
perde-se o gosto,
tempo passa
implacavelmente.

 

*** 

 
Morre-se
de tudo um pouco,
de alegrias, de dores,
de horrores
e amores.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Núvens Esparsas 3


Idade! Que idade,
nestes infinitos sem começos?
Que gota de neblina,
nestes oceanos sem parâmetros,
sem esquinas, sem tamanhos.

Quem inventou o tempo,
nestes mundos atemporais?
Quem se lembra de locais,
nestes espaços cósmicos
sempre reais, sempre lógicos?

 
***

 
Não sou mais dono desses lugares,
sou ânimo que por eles vaga
e divaga,
enquanto estiver, por aí,
eterniz/ando andares.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Núvens Esparsas 2

Bem pouco faço por merecer
tamanha mordomia:
cama macia, comida farta,
boas saúde e companhia.

Pouco agradeço,
todo dia, reclamo
por mais espaço de bem-querer,
como se meu balaio forrado
fosse largo, sem fundo,
para caber todo o prazer
do mundo!

Se olho de lado,
vejo o que é ser coitado,
bem ao inverso de meus desejos:
calçada dura, noite fria,
eventual comida,  
desalentados da vida.

Indignados da sorte,
tropeçam, a cada passo, na morte,
não ascendem ao paraíso,
na contramão da razão e do juízo.

Razão de tal diferença,
simples cumprimento de sentença,
promulgada de próprio punho,
n´outra dimensão imensa?

sábado, 18 de julho de 2015

Núvens Esparsas 1

 
Um dia, seremos Marte,
à procura de vida
ou morte.

Lá, havia mar,
água de beber e chorar,
vontade de viver e andar.

Mas os homens de lá
não souberam se precaver,
como os daqui
não sabem como fazer.

A vida de lá se deixou levar
em turbilhão de poeiras
sequidão e falta de ar.

Micros seres, vírus e companhia,
talvez, um dia, nos esperem
com fome demais
de se perpetuar.